Traição, a Negação e a Ressurreição

Mt 26, 20-35; 28, 1-10

Os evangelistas contam a mesma história numa sequência de fatos, mas com uma mensagem diferente. Muitos teólogos dizem que eles, às vezes, não seguem a mesma linha de narração por discordarem de alguma coisa ou, então, que a própria Igreja tenha mudado. Não é isto. Cada um tem uma mensagem narrando a mesma história.

Mateus, antes, expõe a hora em que Jesus distribuía o pão, instituía a Eucaristia, a traição de Judas, a negação de Pedro. Depois fala da Ressurreição, do túmulo vazio. Se analisarmos esta sequência vamos perceber que a Ressurreição de Jesus, mostrando à humanidade que Deus é maior que a morte, foi precedida de traição e negação. Entre os Doze, havia um que o trairia e outro que o negaria.

Judas, o traidor, não tinha amizade e amor verdadeiros a Jesus. Ele desfrutava de Sua companhia sem comunhão, sem a vontade de realmente defendê-lo. Por isso, na hora em que recebeu das mãos de Jesus o pão embebido no molho – e não no vinho – Satanás entrou nele e tomou conta de seu espírito. E a desgraça de Judas foi total. A traição de Judas não teve volta.

Depois, Jesus fala da negação de Pedro. Este lhe tinha, no fundo, um amor muito grande e no íntimo estava disposto a tudo enfrentar em defesa de Jesus, mas seu lado humano falou mais alto e teve medo. Porém, em espírito, comungou com Jesus as palavras: "…antes que o galo cante, amanhã tu me negarás!"; e chorou amargamente ao se lembrar disso.

Aqui houve retorno e vemos que a Igreja humana caminha sobre a negativa, mas quer estar ligada num profundo amor a Deus. A misericórdia divina se faz presente, quando desejamos realmente acertar. Erramos pelo medo, mas não pela falta de amor a Deus. Quando este falta, mesmo comungando o seu Corpo, não alcançamos a salvação.

Não é preciso ser sábio, não precisa ser nada. É necessário estar com Deus, pois assim, apesar dos erros, há esperança de uma luz no final e cada um poderá dizer: Errei, Jesus, durante toda a minha vida, mas lhe tenho um amor muito grande. Isto nos faz caminhar ao encontro de Jesus glorificado.

Aquele que erra e nada tem no coração, erra pela curiosidade, pela Teologia interesseira… Este, mesmo que entre diariamente na fila da comunhão, no final ouvirá de Jesus: Não te conheço. Não sei quem és. Assim, não participará ele da ressurreição gloriosa de Jesus, ideal do cristão.

Precisamos discernir como gostar de Deus, pois nem todo que recebe o Seu Corpo alcançará a salvação. Enquanto aquele que o negou, por seu sincero e profundo amor a Deus não só obteve a salvação, como recebeu a chefia da Igreja.

Com estes dois fatos vamos progredir, numa evolução humana, onde encontraremos Jesus ressuscitado.

Jesus, ao escolher Seus discípulos, não buscou os ignorantes. Mesmo sendo eles "homens simples, sem preparo, com fraquezas e paixões elementares", Jesus sabia que poderia confiar no testemunho que dariam, levando aos povos a mensagem da Boa-Nova, ao contrário dos escribas e fariseus. Jesus acreditava que a maneira de incutir fé nos homens era mostrar-lhes que tinha fé neles". "Jesus os modelou em uma organização que foi avante vitoriosamente."

Jesus ressuscitado deveria, sob a lógica humana, aparecer primeiro aos discípulos, mas foi às mulheres que o fez (Maria Madalena e Maria de Tiago). Por quê? Porque os discípulos estavam, naquele momento, preparados humanamente para receber toda a estrutura da Boa-Nova, e não para o encontro com Jesus glorificado, pois "não se achavam preparados para a revelação pascal". Por isso Jesus pediu a elas: "Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galileia; lá me verão." E, antes disso, ainda esteve com os dois discípulos de Emaús.

Apoiados nestes exemplos devemos, mesmo diante do túmulo vazio, esperar o momento propício, quando Jesus nos falará como disse aos discípulos: "A paz esteja convosco!"

 

Referência: LOPES, Raymundo. Traição, a Negação e a Ressurreição: Mt 26, 20-35; 28, 1-10. In: LEMBI, Francisco (Org.). O Código Jesus. Belo Horizonte: Magnificat, 2007. p. 213.

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