Maçonaria & Igreja Católica: uma breve introdução

H. Heed Armstrong.

OnePeterFive, 12 de maio de 2017.

[https://onepeterfive.com/freemasonry-catholic-church-brief-introduction/].

Tradução. Bruno Braga.

Maçons, "freemasons", "francmaçons", "libremuoratori", "Freimauren", são os nomes dados aos construtores das grandes catedrais medievais da Europa. Eles pertenciam às guildas católicas e eram obrigados pela estrita adesão aos princípios da fé e da moral católica. Como viajavam por países com diferentes línguas e costumes, desenvolveram o seu próprio conjunto de sinais, símbolos e gestos para mútuo reconhecimento. Esses construtores eram conhecidos como maçons "operativos".

Começando na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, tendo perdido a verdadeira fé católica, livres-pensadores, agnósticos, alquimistas, "antiquários" (aqueles interessados nas religiões pré-cristãs), espiritualistas e rosacruzes (uma sociedade dedicada a restaurar o paraíso terrestre por meio do progresso científico e do conhecimento oculto) emergiram e começaram abertamente a formar cenáculos, salões, clubes e sociedades secretas para promover os seus objetivos. Em 1717, muitos se uniram para formar uma "Grande Loja" unificada e construir, não catedrais para a glória de Deus, mas um templo dedicado à glorificação e perfeição do homem. Sob o pretexto de reconstruir o Templo de Salomão, um símbolo da sabedoria humana, esses "Pedreiros-livres" ou maçons "especulativos" adotaram os rituais e sinais dos antigos construtores de catedrais para secretamente estabelecer a construção de uma nova ordem mundial, ou Novus Ordo Saeculorum. De acordo com os seus adeptos, essa nova ordem seria baseada nos direitos humanos, liberdade, igualdade, fraternidade e na irmandade universal do homem.

Supostamente livres dos ditames arbitrários do "altar e do trono", as lojas maçônicas se espalharam nos séculos XVIII-XIX, fomentando agitação política e revoltas sociais. A vasta maioria dos pensadores revolucionários do período, incluindo Rousseau e Voltaire, foram maçons iniciados.

O atrativo das lojas era que, em um sistema de classe altamente estruturado e também religiosamente dividido, elas aceitavam homens de todas as categorias, posições e crenças, sem distinção, em um laço fraterno de filantropia. A Maçonaria se apresentou como "um belo sistema de moralidade, velado em alegorias e ilustrado por símbolos". O "Ofício" estava lá para "tornar os homens melhores", independentemente de suas filiações religiosas ou políticas.

Sob a sonora retórica, ardia em ódio profundo contra a Igreja Católica e sua autoridade no ensino da fé e da moral. As palavras com as quais Voltaire assinou várias de suas cartas vêm à mente: Écrasez l'infame ("esmagai a infame") – referindo-se à Igreja Católica.

The Permanent Instruction of Alta Vendita (um documento maçônico descoberto em meados do século XIX e atestado pelo Papa Pio IX) concorda:

"Nosso fim último é o de Voltaire e o da Revolução Francesa – a destruição final do Catolicismo e até mesmo da ideia cristã. O trabalho que empreendemos não é trabalho de um dia, nem de um mês ou de um ano. Pode durar muitos anos, talvez um século […] Esmague o inimigo seja ele quem for; esmague os poderosos com mentiras e calúnias […] Se um prelado de província vem a Roma para exercer alguma função pública, estude imediatamente o seu caráter, os seus antecedentes e, acima de tudo, os seus defeitos. Se ele já é um inimigo declarado […] envolva-o em todas as armadilhas que puder colocar sob os seus pés; crie para ele uma daquelas reputações que assustam velhas e criancinhas […] pinte-o cruel e sanguinário: conte sobre ele algum traço de crueldade que possa facilmente ser gravado na mente das pessoas.

Da sua parte, a Igreja Católica [1], a partir de 1738, proibiu os católicos de serem membros de organizações maçônicas [2] e de outras sociedades secretas [3]. Desde então, pelo menos onze Papas [4] fizeram pronunciamentos sobre a incompatibilidade entre a Doutrina Católica e a Maçonaria [5], e de 1738 a 1983, qualquer católico que publicamente se associou, ou que publicamente apoiou, organizações maçônicas foi censurado com a excomunhão automática Latae sententiae (o ato que em si mesmo é causa suficiente, sem necessidade de julgamento posterior ou pronunciamento eclesiástico) [6].

A mais clara dessas condenações é a da Encíclica Humanum Genus do Papa Leão XIII, publicada em 1884:

"O Gênero Humano, após sua miserável queda de Deus, o Criador e Doador dos dons celestes, 'pela inveja do demônio', separou-se em duas partes diferentes e opostas, das quais uma resolutamente luta pela verdade e virtude, e a outra por aquelas coisas que são contrárias à virtude e à verdade. Uma é o reino de Deus na terra, especificamente, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo; e aqueles que desejam em seus corações estar unidos a ela, de modo a receber a salvação, devem necessariamente servir a Deus e Seu único Filho com toda a sua mente e com um desejo completo. A outra é o reino de Satanás, em cuja possessão e controle estão todos e quaisquer que sigam o exemplo fatal de seu líder e de nossos primeiros pais, aqueles que se recusam a obedecer a lei divina e eterna, e que têm muitos objetivos próprios em desprezo a Deus, e também muitos objetivos contra Deus. […] Em cada período do tempo uma tem estado em conflito com a outra, com uma variedade e multiplicidade de armas e de batalhas, embora nem sempre com igual ardor e assalto. Nesta época, entretanto, os partisans (guerrilheiros) do mal parecem estar se reunindo, e estar combatendo com veemência unida, liderados ou auxiliados por aquela sociedade fortemente organizada e difundida chamada os Maçons". 

O que torna essa declaração tão importante é que ela aponta claramente o que se aglutinaria dentro da Maçonaria. O moderno "Ofício" não surge do nada antes da Revolução Francesa, mas é simplesmente uma manifestação da antiga batalha iniciada no Éden. A humanidade está dividida entre aqueles que servem a Deus e aqueles que servem a Satanás.

A inimizade entre os dois exércitos continuará até o fim dos tempos. Não pode haver trégua nem fusão entre o Bem e o Mal, como propôs o maçom Albert Pike no seu impositivo Moral e Dogma da Maçonaria (Morals and Dogma of Freemasonry), Capítulo XXII, "Sublime Príncipe do Segredo Real" ("Sublime Prince of the Royal Secret"):

"A tradição primordial da única revelação tem sido preservada sob o nome de 'Kabalah' [sic] […] Do Equilíbrio entre o Bem e o Mal, e Luz e Escuridão no mundo que nos garante que tudo é obra da Infinita Sabedoria e do Amor Infinito" [ênfase adicionada].

A Encíclica do Papa Leão XIII também deixa claro que o verdadeiro fim da Maçonaria não é a apoteose [divinização] do homem, como em geral se acreditava, inclusive pela ampla maioria dos maçons e círculos modernistas no interior da Igreja (*), mas a apoteose de Satanás. Isto será alcançado, de acordo com Pike, na doutrina cabalística da apokatastasis, ou uma harmoniosa aproximação de tudo o que existe, bem e mal, masculino e feminino (androginia), Cristo e Satanás, tudo englobado e fundido sob a aparência de um infinito amor universal.

Esta é a "doutrina oculta" promovida através dos séculos pelos seguidores de Satanás voltando ao Jardim, como proposta recentemente por Helena P. Blavatsky – A Doutrina Secreta (The Secret Doctrine) (Pasadena, California: Theosophical University Press, 1963),  Vol. I, p. 414. Vol. II, pp. 234, 235, 243, 245.

"A chave do Gênesis está nas nossas mãos, é a Kabbala simbólica e científica que desvela o segredo. A Grande Serpente do Jardim do Éden e o 'Senhor Deus' são idênticos […] Quando a Igreja, portanto, amaldiçoa Satanás, ela amaldiçoa o reflexo cósmico de Deus. […] Pois ele foi o ‘Precursor da Luz’ , o radiante Lúcifer, que abriu os olhos do autômato (Adão) criado por Jeová: ele que foi o primeiro a sussurrar, ‘no dia em que dele comerdes, sereis como Elohim, conhecedores do bem e do mal’ – só pode ser considerado na luz de um Salvador. Um ‘adversário’ de Jeová […] ele permanece ainda na Verdade Esotérica, o sempre amoroso ‘Mensageiro’ […] que nos conferiu a imortalidade espiritual, em vez da imortalidade física […] Satanás, ou Lúcifer, representa o ativo […] ‘Energia Centrífuga do Universo’ em um sentido cósmico […] Adequadamente é ele […] e seus partidários […] enviado para o ‘mar de fogo’, porque é o sol […] a fonte da vida no nosso sistema, onde somos purificados […] e agitados para prepará-los para a outra vida; o Sol que, como a origem do princípio ativo da nossa Terra, é ao mesmo tempo Casa e Fonte de Satanás Mundano” […]

(Blavatsky foi iniciada no "Grand Orient Adoptive Rites of Memphis and Miriam", na alta posição de Crowned Princess 12, em 24 de novembro de 1877).

Essa é também a doutrina oculta proposta por Valentin Tomberg no seu Meditações sobre o Tarot (Meditations on the Tarot), elogiado por Hans Urs von Balthasar na posterior edição inglesa [7] e, infelizmente, adotado por muitos hoje na Igreja.     

A batalha é travada. O Papa Paulo VI alertou na Audiência Geral do dia 15 de novembro de 1972: "o Mal não é uma deficiência, mas um ser espiritual altamente eficiente e pervertido. É uma realidade terrível que é misteriosa e assustadora. 'Sabemos', escreve São João Evangelista, 'que somos de Deus, e que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno'". O Maligno sabe que foi derrotado, mas, no seu orgulho, se recusa a aceitar. Se puder ser aceito novamente pela humanidade como igual a Deus, ele acredita, o Todo-Poderoso também deve aceitá-lo.

Esta é a doutrina "oculta" de todos os tempos conhecida pelos iniciados como a "Tábua de Esmeralda de Hermes Trismegisto", um lendário egípcio contemporâneo de Moisés. É a doutrina cabalística da harmonia surgindo da fusão dos opostos ou coincidetia opositorum, um "deus" para além do verdadeiro e falso, certo e errado, bom e mau. Essa doutrina, infelizmente, está subrepticiamente penetrando nossa Sagrada Fé desde (como Balthasar apontou nas suas "Meditações sobre o Tarot") a Renascença, e no movimento Modernista, que foi categoricamente denunciado por São Pio X, em 1907.

Sabemos, a partir do Livro do Gênesis, que Nossa Senhora é chamada a esmagar a cabeça da serpente. […] "Eu porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela; ela te pisará a cabeça e tu armarás traições ao seu calcanhar" (Gênesis 3, 15).

Que essa promessa seja cumprida em breve!

Reze o Rosário.

(*) Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 12: "Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não-crentes".

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Imagens.

I. Éliphas Lévi. "O que está em cima é como o que está embaixo". O "Deus Completo" maçônico.

II. Nossa Senhora de Guadalupe. "Coatlaxopeuh", "Quatlasupe", que na língua asteca Nahuatl significa "Ela que esmaga a serpente".

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NOTAS

[1]. Cf. [https://en.wikipedia.org/wiki/Catholic_Church].

[2]. Cf. [https://en.wikipedia.org/wiki/Freemasonry].

[3]. Cf. [https://en.wikipedia.org/wiki/Secret_society].

[4]. Cf. [https://en.wikipedia.org/wiki/Pope].

[5]. Cf. [https://en.wikipedia.org/wiki/Freemasonry].

[6]. Cf. [https://en.wikipedia.org/wiki/Excommunication].

[7]. Cf. [https://onepeterfive.com/a-dubious-influence-de-lubac-von-balthasars-effect-on-catholic-thought/].

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