Cardeal Burke: “A apostasia da fé de nosso tempo nos assusta profundamente, e com razão”

Infocatólica, 14 de outubro de 2017.

O Cardeal exortou os fiéis em sua conferência a serem realistas com relação aos grandes males que assolam a Igreja, mas também a terem esperança no triunfo final, na vitória do Sagrado Coração de Jesus.

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Tradução. Bruno Braga.

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(LifeSiteNews / InfoCatólica). A crise no mundo há 100 anos, quando Nossa Senhora apareceu em Fátima, continua hoje, e também infectou a vida da Igreja, disse ontem o Cardeal Raymond Burke.

Dirigindo-se a uma conferência sobre Fátima, na Inglaterra, e coincidindo com o centenário da última aparição, o Cardeal Burke disse que os fiéis devem ser realistas com relação aos grandes males que assolam o mundo e a Igreja, mas que também devem estar cheios de esperança na vitória do Sagrado Coração de Jesus através do Imaculado Coração de Maria.

“A realidade da apostasia da fé em nosso tempo nos assusta profundamente, e com razão”, afirmou. “Nosso amor a Cristo e ao seu corpo místico, a Igreja, nos deixa claro a gravidade do mal que busca roubar nossa salvação eterna em Cristo”.

“Mas não deixemos lugar ao desânimo“, disse. “Melhor, recordem que o Coração Imaculado da Santíssima Virgem Maria, assumido na glória, nunca deixa de bater de amor por nós, os filhos que o Seu Divino Filho lhe entregou quando morria na cruz”.

Um dos quatro Cardeais que apresentaram os dubia, pedindo esclarecimentos ao Papa Francisco sobre a Amoris Laetitia, o Cardeal Burke proferiu o discurso principal para a Conferência “Fátima 100 anos depois: um chamado de Maria para toda a Igreja”, celebrada na Abadia de Buckfast.

 O seu discurso traçou paralelos entre a confusão desenfreada e o “retrocesso” da fé hoje na Igreja em relação a tempos passados.

Somos chamados ao sacrifício.

Burke pediu aos católicos que estão preparados – com a ajuda da Virgem Mãe de Deus – para aceitarem qualquer sacrifício a eles pedido para serem fiéis soldados de Cristo. Isto significa tomar o caminho da oração, da penitência e reparação, conforme foi ensinado por Nossa Senhora de Fátima.

Recorrendo em grande parte à sabedoria e aos escritos do Papa São João Paulo II, junto com outros padres da Igreja, o Cardeal Burke falou sobre a apostasia da fé, os “frutos venenosos do fracasso dos pastores da Igreja“, a natureza do Terceiro Segredo de Fátima, e também da necessidade urgente de Consagrar a Rússia ao Coração Imaculado de Nossa Senhora como Ela solicitou.

Apostasia.

Na conferência, explicou que a apostasia se define como o abandono da fé.

“A natureza fundamental da apostasia é o distanciamento da graça divina, que primeiro havia sido dada por Deus e recebida pelo homem”, disse o Cardeal Burke. “Como a apostasia é cometida por um homem que recebeu o dom da fé, conheceu Deus e sua lei divina, é um pecado contra a religião, um ato de injustiça diante de Deus”.

A apostasia, em sua natureza, pode ser explícita ou implícita, explicou o Cardeal.

Citou a “Suma Teológica” de Santo Tomás de Aquino para ilustrar como as palavras e os fatos exteriores dão testemunho da fé interior, expressando a unidade inseparável entre a fé e a virtude.

“A fé em Deus necessariamente se expressa no amor de Deus“, disse.

A apostasia, explicou, distingue-se da heresia, que é outro pecado grave contra a fé. Enquanto a apostasia é a total renúncia da fé católica, a heresia é a negação de um ou outro dogma da fé. A heresia, dependendo da forma como é abraçada, pode levar à apostasia.

Modernismo.

“O Papa São Pio X e sua Encíclica E Supremi [1], de 1903, vêm à mente ao considerar como a Igreja tem e continua sofrendo com “as persistentes doutrinas heréticas do Modernismo”.

No documento, São Pio X discutiu “o estado desastroso da sociedade humana” neste momento, chamando de apostasia de Deus uma “enfermidade terrível e profundamente arraigada”, arrastando a sociedade à destruição.

“Mais do que nunca hoje o Pontífice Romano enfrenta o desafio desanimador de uma apostasia generalizada de Deus pela fé”.

Uma Encíclica posterior de Pio X, Notre charge apostolique [2], foi dirigida ao movimento político e religioso francês “Le Sillon”, favorável a “uma Igreja do Mundo”.

“Quanto mais hoje, os movimentos por um único governo do mundo – e certos movimentos, inclusive dentro da Igreja – violam a lei moral e carecem de qualquer fundamento no plano de Deus para nós”, disse.

O Cardeal fazia referência à Encíclica Pascendi Dominici Gregis [3], de Pio X, para mostrar como as doutrinas heréticas do Modernismo fluem desde “um racionalismo e sentimentalismo que distanciam as almas da fé mesma”, e que “os partidários do erro” se encontram dentro e fora da Igreja, sendo leigos e sacerdotes.

O Cardeal Burke lamentou que “os fiéis podem ser enganados pelas aparências, pela teatro atrativo e slogans chamativos, mas cuja substância é veneno para suas almas”.

A batalha continua hoje.

“São Pio X mostrou então como um divórcio entre fé e razão, inerente a um enfoque racionalista e sentimentalista, distancia o homem de Deus”, disse. “O Papa Pio X identificou bravamente uma forma venenosa de pensar que havia infestado a Igreja durante alguns séculos, e que continua infestando a Igreja em nosso tempo”.

O Cardeal falou que a apostasia é uma forma de “suicídio espiritual“, segundo o Le dictionnaire de théologie catholique: “Este suicídio espiritual é, depois do ódio contra Deus, o mais grave dos pecados, já que separa total e definitivamente as faculdades da alma humana, a inteligência e a vontade, da união com Deus”.

“Está claro que a apostasia, seja ela explícita ou implícita” disse o Cardeal Burke, “distancia os corações do Imaculado Coração de Maria e também do Sagrado Coração de Jesus, a única fonte de nossa salvação”.

“Neste sentido, como mostra a mensagem de Fátima, os pastores da Igreja que cooperam de alguma forma com a apostasia, também por seu silêncio, têm uma pesada carga de responsabilidade“.

Castigo espiritual.

O Terceiro Segredo de Fátima, disse, não trata de uma guerra nuclear ou do fim do mundo. O antigo Bispo de Leiria-Fátima, Alberto Cosme do Amaral, em 1984, afirmou que o segredo refere-se à fé católica mesma, especificamente, à sua decadência na Europa.

Está claro que só a fé pode salvar o homem dos castigos espirituais que a rebelião contra Deus traz consigo, disse, o clero tem uma responsabilidade particular neste sentido.

“O ensinamento da fé em sua integralidade e com coragem é o coração do ofício dos pastores da Igreja, do Pontífice Romano, dos Bispos em comunhão com a Sé de Pedro e seus principais companheiros de trabalho, os sacerdotes”, continuou o Cardeal Burke. “Por essa razão, o Terceiro Segredo é dirigido com particular força aos que exercem o ofício pastoral em sua igreja”.

Disse ainda: “O seu fracasso em ensinar a fé na fidelidade à doutrina e prática constantes da Igreja, seja mediante declarações e ações explícitas, ou mediante um enfoque superficial, confuso ou inclusive mundano, ou por meio do seu silêncio, põe em perigo mortal a vida espiritual daqueles de quem devia cuidar espiritualmente“.

Ao descrever o efeito generalizado desse fracasso para defender a fé, disse: “Os frutos venenosos do fracasso dos pastores da Igreja são vistos na maneira de adoração, de ensinamento e da disciplina moral que não está de acordo com a lei divina”.

O Cardeal disse que o chamado do Papa João Paulo II para uma nova evangelização foi uma resposta à constante propagação de um abandono da fé e da prática. O Papa fez esse chamado à evangelização, apontando as posições filosóficas inimigas da fé, cujas práticas foram influenciando a vida mesma da Igreja.

A conhecida referência à “cultura da morte“, do Papa João Paulo II, também surgiu de sua análise da apostasia, assinalou.

“Cremos que em nosso tempo há apostasia na prática dos católicos que apoiam e promovem programas e leis que são contrários à lei moral ou que são silenciosos e inertes com relação a eles“, disse o Cardeal Burke. “Pensamos na confusão e no erro cada vez mais difusos na Igreja sobre os fundamentos da fé, sobre a Santa Eucaristia e o Santo Matrimônio, sobre as Sagradas Escrituras. E sobre a vida moral, sobre os atos que sempre e em todas as partes são maus, e sobre o justo castigo do pecado, incluída a condenação eterna da alma que permanece impenitente do pecado grave”.

Ultimamente, contudo, isso pode acontecer com impunidade.

“E tudo isso em muitos lugares não só não é corrigido pelo claro anúncio do ensinamento e prática constantes da Igreja, mas é tolerado e até promovido por aqueles que Nosso Senhor encarregou do cuidado das almas“, disse o Cardeal Burke na conferência. “Não estamos falando de perguntas teóricas, mas de uma confusão e erro que põe em perigo a salvação das almas”.

A Igreja precisa mais do que nunca.

“Em um momento em que o mundo mais que nunca precisa do testemunho claro e valente da Igreja, parece que ela não se conhece a si mesma. As mensagens do Papa João Paulo II e da Virgem permanecem pertinentes agora”, disse.

“A necessidade urgente de uma nova evangelização do mundo, possível graças a uma nova evangelização prévia da Igreja, nunca foi tão urgente”. “A mensagem de Nossa Senhora de Fátima nunca foi tão oportuna“.

Nossa Senhora ensina que a paz de Deus virá por dois meios, disse o Cardeal: a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria e a prática da Comunhão reparadora no primeiro sábado do mês.

Com relação à Consagração da Rússia, disse que não duvida de que a intenção do Papa São João Paulo II foi levar a cabo a Consagração em 1984, e disse que a Irmã Lúcia havia indicado que Nossa Senhora a aceitou.

“Mas é evidente que a Consagração não foi realizada da forma solicitada por Nossa Senhora“, disse o Cardeal Burke. “Reconhecendo a necessidade de uma conversão total do materialismo ateísta e do comunismo a Cristo, o chamado de Nossa Senhora de Fátima para Consagrar a Rússia ao Seu Coração Imaculado conforme a Sua explícita instrução permanece urgente”.

Nossa Senhora vence no final, mas devemos agir.

Temos a segurança de Nossa Senhora de que o Seu Coração Imaculado triunfará“, acrescentou, “que a verdade e o amor de Seu Divino Filho triunfarão, e somos chamados a ser agentes do seu triunfo por meio de nossa obediência ao Seu conselho maternal”.

A descrição da Irmã Lúcia do Terceiro Segredo incluía o anjo ao lado de Nossa Senhora, apontando para a Terra e gritando repetidamente: “Penitência”.

Também descreveu o martírio daqueles que seguem fiéis ao Senhor.

Para estes o Cardeal Burke disse: “Não deixemos de aceitar todo sofrimento que provém do nosso fiel testemunho por Aquele que é o verdadeiro tesouro de nossos corações”.

NOTAS.

[1]. Cf. [http://w2.vatican.va/content/pius-x/en/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_04101903_e-supremi.html].

[2]. Cf. [http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/es/ivd.htm].

[3]. Cf. [http://w2.vatican.va/content/pius-x/pt/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis.html].

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