Zen comenta novamente o acordo com a China

O Cardeal Joseph Zen voltou a comentar o recente acordo entre o Vaticano e o governo chinês: “indiretamente, o Vaticano está ajudando o governo a aniquilar a Igreja subterrânea, que Pequim não foi capaz de destruir”.

LifeSiteNews, 27 de novembro de 2018.

[https://www.lifesitenews.com/news/cdl.-zen-vatican-is-helping-chinas-communist-govt.-annihilate-underground-c].

Tradução. Bruno Braga.

Em uma recente entrevista para o site francês La Croix International [1], o Cardeal Joseph Zen reafirmou a sua resistência contra o acordo “provisório” de 22 de setembro de 2018 entre o Vaticano e a China comunista, sobre a nomeação de Bispos. Acordo cujo conteúdo ainda é em grande parte desconhecido [2]. Ele, porém, irá readmitir “à completa comunhão eclesial os Bispos ‘oficiais’ existentes, ordenados sem mandato pontifício”. O Cardeal explica que o acordo está agora sendo utilizado para coagir os católicos subterrâneos a se juntarem à Associação Patriótica Católica Chinesa, submetida à lei comunista. Sem confiar nas pessoas que cercam o Papa, ele recentemente entregou ao Pontífice, em mãos, uma carta de sete páginas.

Na entrevista de 22 de novembro, o Cardeal Zen deixa claro que considera o acordo de 22 de setembro destrutivo para o fiel da Igreja subterrânea na China. Ele afirma que “o Papa não conseguiu nada com esse acordo, é fake, uma ilusão, e Pequim faz com que ele perca a sua autoridade”. As “autoridades chinesas consideram que ainda estão no comando da Igreja chinesa e escolherão os Bispos. O Papa terá apenas a última palavra”, explica Zen.

Zen ressalta que o acordo tem uma natureza secreta e, por isso, pode ser manipulado pelos comunistas chineses: “como esse acordo é secreto, o chinês pensa que todo o processo agora está legalizado, e que eles podem escolher os Bispos. Eles pensam que a Santa Sé assinou um cheque em branco e que eles podem fazer o que quiserem”. Uma das consequências desse acordo entre Roma e China é que os comunistas irão abordar todos os fiéis católicos na China para lhes dizer que agora eles têm que “sair e deixar a clandestinidade para se unirem à Associação Patriótica Católica, a igreja oficial. ‘Saia, saia, o Papa deu ok’, irão dizer”, afirma o Cardeal.

O Papa Francisco está agora prestes a remover a excomunhão de bispos da Associação Patriótica que estão sob o controle comunista, promovendo assim um certo avanço que enfraquece os fiéis católicos. Zen explica que a situação é a seguinte: “Certamente, é apenas o começo, mas podemos claramente ver onde isso vai dar. O Papa suspendeu a excomunhão de sete Bispos e deu a jurisdição de uma Diocese para o Bispo Guo, em Chengde. O Papa vai esperar antes de legitimar os outros seis. É apenas uma questão de tempo”.

Com esse apoio papal e a tolerância para com Bispos ligados ao comunismo, o Cardeal Zen acrescenta: “indiretamente, o Vaticano está ajudando o governo a aniquilar a Igreja subterrânea, que Pequim não foi capaz de destruir”.

Zen ainda pergunta como é possível falar em unidade, se “eles forçam os subterrâneos a entrarem na gaiola?”

Zen descreve como os bons Bispos na China estão agora, com o acordo do Vaticano, até mais marginalizados, mas eles continuam lutando. “Agora o regime está destruindo a Igreja subterrânea e desencorajando os poucos bispos bons na igreja oficial. Eles fazem o que podem, mas são marginalizados”.

O Cardeal Zen ainda anuncia que, se o Papa Francisco também legitimar os seis bispos restantes da Associação Patriótica, ele deverá cair em silêncio e ir para um mosteiro: “Eu não posso lutar contra o Papa. Mas se ele legitimar os seis bispos, eu vou me retirar para um mosteiro e rezar. Não falarei mais com os jornalistas. Permanecerei em silêncio”.

Há pouco tempo, o Cardeal Zen entregou pessoalmente ao Papa Francisco uma carta de sete páginas. “Queria ter certeza de que ele recebeu minha carta de sete páginas, pois não confio nas pessoas em volta dele”. Falando sobre o conteúdo da carta, Zen diz: “Eu pedi para ele parar as negociações com Pequim”, e acrescentou que “o Papa não conhece a situação da Igreja na China”. Ele também adverte o Papa a não visitar a China, porque ele seria “manipulado pelo regime, já que seria bom para a credibilidade internacional do Presidente Xi Jinping”.

O Cardeal Zen há anos alerta contra um acordo do Vaticano com a China. Em 2016, falando para o site dos Bispos alemães, Katholisch.de [3], ele advertiu contra um possível acordo com a China, dizendo: “Primeiro, devemos estar de acordo com a questão ‘o que é um regime comunista’. É um regime totalitário que quer controlar tudo, controlar também a Igreja. Mas isso nós não podemos permitir – a Igreja não pode ser controlada por um governo, por um regime”.

Ele deixou claro que esses últimos anos em que Vaticano tenta firmar compromissos com a China comunista têm apenas enfraquecido a Igreja: “Todos esses anos de compromissos enfraqueceram a posição da Igreja. Ao contrário, a Igreja deveria encorajar os fiéis a serem fortes, a resistirem”.

O Cardeal Zen já tinha anunciado em 2016 o silêncio, caso houvesse um acordo com a China. “Se Francisco chegar a um acordo com Pequim, eu paro de falar. Desapareço. […] Irei ler meus livros e nunca aparecerei em público novamente. Foi o que disse também para os meus irmãos: retirar-se silenciosamente e esperar até que venham tempos melhores”.

Espera-se que o Cardeal Zen mude de ideia e continue falando em público para o seu povo reprimido, e que permaneça para ele um profeta ou, em suas próprias palavras: “Eu sou alguém que chora no deserto”.

NOTAS.

[1]. Cf. [https://international.la-croix.com/news/pope-francis-should-stop-negotiations-with-beijing/8912].

[2]. Cf. [https://www.lifesitenews.com/news/breaking-vatican-signs-provisional-agreement-with-china-on-appointment-of-b].

[3]. Cf. [http://thewandererpress.com/catholic/news/breaking/cardinal-joseph-zen-on-the-dangers-of-making-an-agreement-with-communist-china/].