Pressão para maior aceitação das uniões homossexuais continua na Igreja alemã

Maike Hickson.

OnePeterFive, 19 de janeiro de 2018.

[https://onepeterfive.com/push-for-greater-acceptance-of-homosexual-unions-continues-in-german-church/].

Tradução. Bruno Braga.

 

Desde o começo deste ano, parece existir uma intensificação da atividade progressista dentro da Igreja Católica na Alemanha com o objetivo de abrir o ensinamento e a avaliação da Igreja sobre a homossexualidade. Como se uma barragem tivesse sido rompida, uma iniciativa rapidamente é seguida de outra. No sentido de uma “Igreja descentralizada”, como recentemente sublinhou o teólogo progressista, o padre Paul Zulehner [1], parece que a Alemanha pode se tornar o país de referência com relação a este assunto, assim como a região da Amazônia pode ser líder na reforma relativa aos padres casados. O futuro próximo nos dirá mais. Por ora vamos recontar aqui algumas das declarações alemãs.

Na edição de janeiro do jornal católico alemão Herder Korrespondenz [2], há uma entrevista com o Cardeal Reinhard Marx. Como presidente da Conferência dos Bispos Alemães e conselheiro do Papa, Marx propôs que a Igreja Católica repense o seu ensinamento sobre a moralidade sexual, argumentando contra um “rigorismo cego”. Para ele, é “difícil dizer de fora se alguém está em estado de pecado mortal”. Marx aplicou esta declaração não somente a homens e mulheres em “situações irregulares”, mas também àqueles em um relacionamento homossexual, dizendo que deve haver “respeito por uma decisão tomada em liberdade” e à luz da “consciência” de cada um; e acrescentou que também se deve “ouvir a voz da Igreja”.

Pouco tempo depois do surgimento dessa notícia (já poucos dias antes de iniciado o ano novo, em 27 de dezembro de 2017) – e após o site de notícias oficial dos Bispos alemães publicar imediatamente estas declarações de Marx [3] – veio o agora amplamente discutido chamado para uma benção dos casais homossexuais [4], com o anúncio em uma entrevista do dia 10 de janeiro, concedida pelo vice-presidente da Conferência dos Bispos Alemães, o Bispo Franz-Josef Bode, de Osnabrück. Bode então declarou que seria importante discutir a questão como um todo, e acrescentou:

“Devemos refletir sobre o problema de como julgar, de forma diferenciada, a relação entre duas pessoas homossexuais”. […] “Não há então muito de positivo, bom e correto para que devamos ser mais justos?”

Apenas três dias depois, em 13 de janeiro, o site dos Bispos alemães, Katholisch.de, publicou uma entrevista com o professor Benedikt Kranemann, um liturgista acadêmico do departamento de teologia católica da Universidade de Erfurt [5]. Kranemann também é um consultor da Conferência dos Bispos Alemães. Na entrevista, o professor alemão declarou abertamente que, até o momento,

“não houve ainda uma discussão teológica na Igreja Católica sobre em qual forma ritual uma promessa salvífica [sic] de Deus – porque é isso o que significa uma benção – poderia ser manifestada por casais homossexuais”.

Kranemann acrescentou: “Eu acho teologicamente problemático se alguém realiza uma benção que depende da avaliação moral da conduta humana”. Para fundamentar este argumento, ele se referiu à benção de carros, “em que os motoristas recebem a benção independentemente da sua forma de dirigir”. De acordo com Kranemann, a benção de um casal homossexual não é necessariamente um primeiro passo para um Sacramento. “As bênçãos são várias; umas conduzem aos Sacramentos, outras, não”.

Como se falasse sobre um “direito humano à benção”, Kranemann explica:

“Considero teologicamente problemático se a benção é negada a uma pessoa que a tem como necessária para ela. As pessoas também têm o direito de que a graça de Deus deva ser estendida a elas, conforme explicou o teólogo Ottmar Fuchs em seus recentes estudos”.

No final dessa entrevista, o professor Kranemann louva o Bispo Bode por sua iniciativa, dizendo: “Eu penso que é bom que o Bispo Bode – nada menos que o vice-presidente da Conferência dos Bispos Alemães – esteja forçando este tema agora”.

Apenas quatro dias depois da entrevista de Kranemann, em 18 de janeiro, o professor Stephan Goertz levantou sua voz em apoio às uniões homossexuais na Igreja Católica. Escrevendo para a seção de religião do importante jornal alemão Die Zeit, Christ & Welt, Goertz dá ao seu artigo o título Praise the Luck, Brothers! [tradução livre: “Louvem a felicidade, irmãos!”]. Como era de se esperar, o Katholisch.de publicou uma notícia sobre esse artigo, inclusive a apresentou um dia antes da data oficial da publicação [6].

Goertz é professor de teologia moral na Universidade de Meins, e é um conhecido apoiador do relaxamento do ensino da Igreja Católica sobre a moralidade sexual. Já em 2015 [7], ele perguntou se as uniões homossexuais não poderiam ter um “caráter sacramental”. Ele tinha acabado de publicar um livro com o título: Who Am I to Judge? Homosexuality and the Catholic Church [tradução livre: “Quem sou eu para julgar? A homossexualidade e a Igreja Católica”] [8]. Agora, em 2018, Goertz vê um movimento muito favorável e progressivo dentro da Igreja Católica com relação a este tema. Ele destaca as declarações recentes do Cardeal Marx, do Bispo Bode e do Arcebispo Heiner Koch, de Berlim (que afirmou, em 2017, que “a coabitação de pessoas do mesmo sexo pode ser avaliada por meio de outros arranjos institucionais sem abrir o instituto legal do casamento” [9]); e diz que eles “chamaram a atenção”. Goertz entende que é “legítimo que a Igreja Católica entre no século XXI com uma nova avaliação dos relacionamentos homossexuais”. Por muito tempo, ele acrescenta, a Igreja teve uma “atitude rigorista” com relação à homossexualidade. “Agora, com o Papa Francisco, houve uma mudança”. De acordo com Goertz, a Igreja agora confia mais na competência moral e no julgamento das pessoas. “A esfera da liberdade está cuidadosamente sendo ampliada”. Com um olhar esperançoso, ele profetiza que, a Igreja mudará suas visões sobre o assunto e reconhecerá “o bom e o correto” nos relacionamentos homossexuais, e “a dificuldade em lidar com os cuidadores homossexuais (masculino e feminino) chegaria ao fim”.

Como um observador católico alemão colocou, até o momento nenhum Bispo alemão se apresentou para resistir a qualquer dessas recentes iniciativas liberalizantes promovidas pela Conferência dos Bispos Alemães.

É importante notar aqui que existem ligações entre essas novas iniciativas progressistas sobre a homossexualidade e aquelas relativas à contracepção. Como Edward Pentin recentemente mostrou [10], dois dos oradores de uma série de palestras sobre “repensar a Humanae Vitae”, sediada pela Universidade Gregoriana de Roma – padre Maurizio Chiodi (que agora reivindica que a contracepção pode às vezes ser necessária [11]) e o padre Miguel Yanez – também participaram de uma apresentação de um livro editado pelo professor Goertz (em conjunto com Caroline Witting) [12]. Pentin coloca de forma perspicaz que, nesse novo livro de Goertz, “argumenta-se que a Amoris Laetitia representa uma mudança de paradigma para toda a teologia moral e especialmente para a interpretação da Humanae Vitae”.

Vamos também recordar aqui que foi na mesma Universidade romana – a Universidade Gregoriana – que, em maio de 2015, aconteceu o controverso “concílio da sombra” ou “Dia de Estudo” que, organizado pelos Bispos alemães e outros, parece ter preparado o caminho para a Amoris Laetitia [13] e para as mudanças de outras áreas do ensinamento moral da Igreja. Um dos oradores do evento, a professora Anne-Marie Pelletier, de Paris, França, recebeu enquanto isso a honra de ser convidada pelo Papa Francisco para escrever as Meditações de 2017 das Estações da Cruz, em Roma [14].

Então, devemos continuar a dar o verdadeiro testemunho em face da completa destruição do edifício moral da Igreja Católica, como tem sido encorajada pelo Papa Francisco na sua exortação pós-sinodal Amoris Laetitia”, criticada com discernimento pelo professor Josef Seifert como uma potencial “bomba atômica moral”.

NOTAS.

[1]. Cf. [https://onepeterfive.com/austrian-priest-female-priests-will-married-priests/].

[2]. Cf. [https://www.herder-korrespondenz.de/heftarchiv/72-jahrgang-2018/heft-1-2018/ein-gespraech-mit-dem-dbk-vorsitzenden-kardinal-reinhard-marx-gott-denkt-groesser].

[3]. Cf. [http://www.katholisch.de/aktuelles/aktuelle-artikel/kardinal-marx-fur-mehr-laien-in-der-kirchenleitung].

[4]. Cf. [https://www.lifesitenews.com/news/vp-of-german-bishops-conference-proposes-blessing-for-homosexual-couples].

[5]. Cf. [http://www.katholisch.de/aktuelles/aktuelle-artikel/theologe-darum-braucht-es-den-segen-fur-homosexuelle].

[6]. Cf. [http://www.katholisch.de/aktuelles/aktuelle-artikel/homosexualitat-theologe-sieht-umschwung-bei-kirche].

[7]. Cf. [https://www.lifesitenews.com/news/german-bishops-conference-website-promotes-homosexual-unions-as-sacrament].

[8]. Cf. [https://www.herder.de/religion-theologie-shop/wer-bin-ich,-ihn-zu-verurteilen-taschenbuch/c-25/p-2974/].

[9]. Cf. [http://catholicherald.co.uk/news/2017/07/01/german-bishops-regret-same-sex-marriage-vote/].

[10]. Cf. [http://www.ncregister.com/blog/edward-pentin/gregorian-university-hosts-series-of-talks-to-take-new-look-at-humanae].

[11]. Cf. [https://www.lifesitenews.com/news/new-academy-for-life-member-uses-amoris-to-say-some-circumstances-require-c].

[12]. Cf. [https://www.herder.de/religion-theologie-shop/amoris-laetitia-wendepunkt-fuer-die-moraltheologie-kartonierte-ausgabe/c-25/p-7104/].

[13]. Cf. [https://www.lifesitenews.com/opinion/the-heterodoxies-of-the-shadow-council-some-important-excerpts].

[14]. Cf. [https://onepeterfive.com/pope-francis-asks-defender-remarried-divorcees-write-good-friday-meditations/