O que tenho a oferecer?

Os arcanjos instruem Raymundo sobre a diversidade de dons que podem ser oferecidos a Deus, de modo que cada um ofereça o que possui. Utilizam para isso a imagem de uma leoa, que se dispõe a oferecer seus serviços ao Menino Jesus na manjedoura, junto ao burro e à vaca.

10 de novembro de 2008

Ontem, depois de ver pela televisão uma verdadeira guerra entre gregos e armênios ortodoxos na frente do Santo Sepulcro, em Jerusalém, desci horrorizado até a Capela Magnificat para rezar, pedindo a Jesus que nos dê a paz. Lá surgiram, aproximando-se de mim, os meus três amigos1 que sempre me visitam.

Um deles falou-me:

– Na compreensão de vocês, eu me chamo Gabriel. Quero que forneça a Jesus sua esperança.

E me entregou uma caixa embrulhada em papel azul para presente. Era aquele menino que saiu na foto ao meu lado em Nevers, na França.

Em seguida, outro me disse:

– Na compreensão de vocês, eu me chamo Uriel. Quero que forneça a Jesus a sua fé.

E me deu um embrulho da cor amarela. Era o menino que esteve comigo no Vaticano.

O terceiro completou:

– Na compreensão de vocês, eu me chamo Rafael, e gostaria que presenteasse a Jesus a sua caridade.

E me deu um embrulho da cor vermelha. Era o menino que vi no México.

Eu comecei a rir:

– Fé, esperança e caridade… Já conheço isto!

Eles responderam:

– Não, não conhece não. Queremos que nos leve a um presépio.

– Onde? – repliquei.

– Na Basílica de Lourdes, onde você reza. Pode ser?

– Claro que pode. Vamos de carro.

Depois lembrei que não estou dirigindo mais. Mas os três me convenceram a dirigir, dizendo que não iria acontecer nada.

Seguimos de carro em direção à basílica. Eu os levava, e cada um levava consigo aqueles presentes que, segundo eles, seriam oferecidos a Jesus, para que Ele os fornecesse a quem fosse. Os três discutiam qual dos presentes mais agradaria a Jesus.

Um deles me disse:

– Já estou bem experiente para utilizar da fé e que necessito mais dela, porque vivo-a no paraíso.

Enquanto falava, acariciava o embrulho amarelo.

O segundo abraçava o embrulho vermelho, e dizia:

– Não necessito mais da caridade, porque fazemos tudo o que Deus deseja que façamos. E a maior das nossas tarefas é a caridade. Estamos fornecendo a você o que vem de Deus.

O terceiro levava debaixo do braço o embrulho azul, e dizia:

– Vou lhe dar a minha esperança. Quero que ofereça a Jesus este presente.

Eu ria e pensava: “Como vou oferecer a Jesus fé, esperança e caridade? Como? Isto acho que Ele já tem”. Entretanto, eu pensava também estar levando as versões do ouro, incenso e mirra.

Cheguei à basílica, e lá me esperavam três homens de preto. Eles estavam pegando diversas outras coisas de algumas pessoas e depois as colocavam ao lado da imagem de Jesus no Sacrário. Virei e fiz menção de pegar dos “garotos” os embrulhos, mas o que presenciei me deixou gelado. Eles tinham escondido os presentes, recusando entregá-los a mim. Eles cantavam uma canção que me lembrava a minha infância, que falava sobre a utilidade do burro, da vaca na vida de Jesus, Maria e José.

Um deles perguntou-me:

– Por que no presépio não existem bichos selvagens, e nem neste canto que você está ouvindo existem bichos selvagens? Por que será? Será que eles não têm nada para oferecer a Jesus?

Surgiu então outra personagem: Maria, a Mãe de Jesus.

Ela me disse:

– Têm sim; os bichos selvagens têm sempre algo para oferecer ao meu Filho.

Em seguida, vi aproximar-se de Nossa Senhora uma leoa grande e imponente. O burro e a vaca ficaram amedrontados. Então, do Sacrário, que tinha se convertido numa manjedoura, saiu um clarão que iluminou a leoa. Os carneirinhos começaram a balir, e o burro disse:

– Vá embora, leoa, aqui não é lugar para você.

A leoa piscou os olhos, contemplando o grupo de animais:

– Aqui é o único lugar para mim.

– Não nos deixe com raiva; eu posso lhe dar um coice – ameaçou o burro.

– Diga-me uma coisa: por que aqui é lugar para um burro, uma vaca, carneiros e pombos e não é lugar para mim? – respondeu a leoa.

– Estamos aqui para fazer chegar a esse “menino” o nosso calor, o nosso carinho! – replicou o burro.

– É, e para amá-lo – disse a vaca, orgulhosa.

A leoa pensou naquilo que ouviu:

– Posso fazer tudo isso tão bem quanto vocês – ela afirmou.

– É, mas nós somos amigos, e você é inimiga – respondeu a vaca.

– Quando é que os humanos foram meus amigos? Se sou inimiga da raça humana, é porque a raça humana é minha inimiga. Desejo ser amiga desse homem, apesar de ainda ser uma criança.

– Impossível, você sabe apenas caçar – disse-lhe a pomba.

– A única coisa que aprendi foi caçar. Por isso o Criador fez inúmeras coisas para serem caçadas.

– Então você vive pela astúcia – disse-lhe o burro.

– Como vocês todos são moralistas!… Como eu haveria de viver? O que me leva a esconder os meus filhotes, para iludir os que me caçam? Somente a minha astúcia, não acham?

– Você só pensa em si mesma – disse-lhe o burro.

– Belo raciocínio! Estar sempre sozinha com os meus é da minha natureza.

E completou:

– Vocês têm mais alguma coisa contra mim?

– Você não pode ser domada – respondeu a vaca.

– Você está tocando num ponto fundamental. Mordo a mão que defende a minha liberdade, quando ela me põe numa jaula. Ninguém pode domar uma leoa. No entanto, está chegando o momento em que até uma leoa será domada.

– Quando será isto?

– Depois que eu lhe der o meu presente!

– Que presente você poderia dar a este menino?

– O que eu tenho para presenteá-lo é uma coisa que me pertence. É só minha e não desmerecerá os presentes de vocês.

– Conte-nos o que é!

– A minha astúcia em lidar com a adversidade e ensinar a verdade num local onde impera a esperteza.

O burro, a vaca, a ovelha e o pombo ficaram assombrados e indignados.

– Que bom – disse uma voz vinda do Sacrário, que tinha se transformado em uma manjedoura.

Jesus Menino estava com as mãos levantadas, olhava para todos os animais e sorria.

E disse o burro a Jesus:

– Por que você deseja astúcia?

– É porque é uma coisa inteira, não pode ser dividida. A vaca me deu uma manjedoura, que em breve servirá para ser enchida de novo de feno. Você carregou a minha Mãe e me carregou também, mas o seu lombo suportará outras cargas. Agradeço a todos, deram-me presentes que permanecem seus. E isto está correto, porque vocês podem partilhá-los. Mas, a leoa…

O Menino parou e continuou:

– Essa leoa me deu tudo o que tinha. Sem a sua astúcia, como vou responder aos fariseus hipócritas? Como vou me safar das armadilhas da esperteza? Como essa leoa viverá agora, sozinha, se a única coisa que tem ela me deu?

O Menino Jesus colocou a mãozinha sobre a cabeça da leoa e lhe disse:

– Venho do Céu para viver numa terra estranha. Agora eles me dão as boas-vindas no Natal. Mas um dia, quando eu estiver com trinta e poucos anos, a coisa será diferente. Fique junto a mim.

– Sabe que não posso. O que você tem a fazer, só pode ser feito por você. E tudo que uma amiga podia fazer eu acabei de fazer: dei-lhe a minha astúcia. Agora você é a leoa sozinha contra o mundo – respondeu a leoa.

O Menino Jesus tremeu:

– Você tem razão. É assim que tem de ser, somente Eu vou ser como você.

Então a leoa afastou-se, indo para junto dos animais, e escolheu um lugar entre a vaca e o burro. Olhava o Menino, que parecia desfiar o tempo, uma vida de trinta e três anos.

– Somos simples demais para entender isto – disse o burro.

Aproximando-se da leoa, deixaram cair as cabeças e dormiram.

Comecei a sair da basílica, quando vi voando na minha direção um cisne.

– O que esse cisne estaria fazendo sozinho?… De onde teria vindo?…

Os meninos me disseram:

– Não está vindo de lugar nenhum, está indo para o presépio.

– O que será que esse cisne dará ao Menino Jesus? – perguntei.

– Vai dar a Jesus o seu canto. Todo cisne, quando pressente a morte, canta. Quando voltarmos à capela, o cisne já estará ao lado da leoa.

Eu tinha adormecido na cadeira da capela. Quando acordei, estava sozinho, com o Bidu, meu cachorrinho, me lambendo a face.

 

1 Arcanjos Gabriel, Rafael e Uriel.

 

Referência: LOPES, Raymundo. O que tenho a oferecer?. In: LEMBI, Francisco (Org.). Raymundo Lopes, Daniel: Uma incógnita dos finais dos tempos. Belo Horizonte: Magnificat, 2010. p. 41-47.