Leão XIII sobre a Maçonaria. Humanum Genus (1884).

A Igreja condenou a Maçonaria reiteradas vezes. A encíclica Humanum Genus, de Leão XIII, não só condena a seita secreta, mas revela a sua natureza, o seu fim, e nos oferece os remédios para combatê-la.

 

Adelante la fé, 06 de dezembro de 2018.

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Tradução. Bruno Braga.

A Igreja condenou a Maçonaria pelo menos 600 vezes. De Clemente XII (1738) a Pio XII. Leão XIII foi o Papa que (junto com Pio IX) mais a fulminou.

A Encíclica Humanum genus, escrita em 20 de abril de 1884, é o principal documento pontifício condena a seita secreta. Mais que isso, também revela a sua natureza, o seu fim, e nos oferece os remédios para combatê-la. Não se pode, portanto, desconhecer a Humanum genus, se se quer combater a ação maçônica desagregadora da sociedade civil ordenada e, se possível, da própria Igreja, que pode atravessar momentos obscuros ou de crise em seus membros, mas é sempre e todos os dias assistida por Deus até o fim do mundo. Por isso, “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

O Papa Pecci começa a sua Encíclica sobre a Maçonaria com a descrição do pecado de Lúcifer, que teve como consequência a criação do inferno e a condenação de uma pequena parte dos Anjos, permanecendo a maior parte deles fiel ao Senhor. Depois, Lúcifer, em forma de serpente, tentou Adão e Eva para fazer-lhes perder o tesouro da ordem sobrenatural (a graça habitual ou santificante) que haviam recebido de Deus, e que ele, espírito puro (embora mau), naturalmente superior aos dois, simples humanos, já não tinha para toda a eternidade. A partir desse momento, o gênero humano, filho dos progenitores que se rebelaram contra Deus, seguindo a tentação demoníaca, “separou-se em duas partes diferentes e opostas, das quais uma resolutamente luta pela verdade e virtude, e a outra por aquelas coisas que são contrárias à virtude e à verdade. Uma é o reino de Deus na terra, especificamente, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo” […]  “A outra é o reino de Satanás, em cuja possessão e controle estão todos e quaisquer que sigam o exemplo fatal de seu líder e de nossos primeiros pais, aqueles que se recusam a obedecer à lei divina e eterna” (Leão XIII, Encíclica Humanum genus, in Tutte le Encicliche dei Sommi Pontefici, Milão-Itália, Dall’Oglio Editore, ed. V, 1959, 1º vol., p. 383).

Depois, o Papa cita Santo Agostinho (De Civitate Dei, lib. XIV, cap. 17), que ensina: “Dois amores formaram duas cidades: a terrena, do amor de si mesmo até o desprezo de Deus, e a celestial, do amor de Deus até o desprezo de si mesmo”.

Em toda a história humana, essas “duas cidades” (Santo Agostinho) ou esses “dois campos diferentes e inimigos entre si” (Leão XIII) se enfrentam constantemente. Mas, “hoje”, explica o Papa (em 1884), a Maçonaria realiza os últimos ensaios para lançar o assalto final contra a Igreja de Cristo. De fato, “os partisans (guerrilheiros) do mal parecem estar se reunindo, e estar combatendo com veemência unida” […] “Não mais fazendo qualquer segredo de seus propósitos, eles estão agora abruptamente levantando-se contra o próprio Deus. Eles estão planejando a destruição da santa Igreja publicamente e abertamente, e isso com o propósito estabelecido de despojar completamente as nações da Cristandade, se isso fosse possível, das bênçãos obtidas para nós através de Jesus Cristo nosso Salvador” (ibidem, p. 384).

O dever do Papa é, portanto, denunciar publicamente a seita infernal, a Maçonaria, que abarca todas as demais seitas. Por isso, o Pontífice alerta os príncipes e os povos, para que não se deixem enganar pelas astúcias e tramas insidiosas da Maçonaria.

A Maçonaria é nefasta, e não só para a Igreja, mas também para o Estado, na medida em que é uma seita secreta que tenta se apoderar dos Estados para reuni-los todos em um poder ultra-nacional e mundial, que esteja submetido aos princípios do inferno. Portanto, os Estados devem lutar contra Maçonaria, se não querem se transformar em escravos e, com ela, escravos de Satanás.

O Papa depois resume o caminho utilizado pela Maçonaria desde a sua fundação pública (1717) até o seu tempo (1884), quando começou a cumprir parte do seu programa, convertendo-se em “dona dos Estados” (ibidem, p. 386). Por esse motivo, Leão XIII escreve que “tal condição foi atingida que de agora em diante haverá grave razão para temer, não realmente pela Igreja ― porque sua fundação é firme demais para ser derrubada pelos esforços dos homens ― mas por aqueles Estados em que prevalece o poder, ou da seita da qual estamos falando ou de outras seitas não diferentes que curvam-se a ela como discípulas e subordinadas” (ibidem, p. 386).

A Igreja, em sua natureza, é divina, embora seja composta de membros humanos. Em sua natureza, portanto, não tem nada a temer; mas o esforço da Maçonaria não tem poupado os membros da Igreja, sobretudo aqueles que mandam (Bispos), para tentar – como se fosse possível – alterar a sua natureza. Hoje, após a revolução do Concílio Vaticano II, levada adiante pela B’nai B’rith, ou seja, a Maçonaria judaica, devemos constatar os progressos feitos pela seita infernal, inclusive dentro da Igreja. Mas devemos continuar seguros e confiantes em sua inalterável essência ou natureza, que o inferno não poderá jamais eliminar.

O segredo é um dos elementos negativos e inquietantes da Maçonaria e das sociedades que se relacionam com ela. De fato, o Papa ensina que “todas as sociedades secretas estão relacionadas com a Maçonaria” (ibidem, p. 386); permanecerão sempre “secretas” em seus membros mais importantes, em seus propósitos mais inquietantes e em sua natureza íntima, que entretanto é revelada pelo Papa na sua Encíclica.

Outra tática da Maçonaria é a “camuflagem” (ibidem, p. 387). Com efeito, “os maçons, apresentando-se com aparências acadêmicas ou científicas, têm sempre nos lábios o zelo pela civilização, o amor pelo povo e o ser sua única intenção melhorar as condições do povo” (ibidem).

A seita exige uma obediência cega e absoluta: “Os candidatos são geralmente ordenados a prometer ― e mais, com um especial juramento, a jurar ― que eles não irão nunca, a nenhuma pessoa, em qualquer tempo ou de qualquer modo, dar a conhecer os membros, as senhas, ou os assuntos discutidos” […] “os candidatos prometem e assumem ser daí em diante estritamente obedientes aos seus líderes e mestres com a mais completa submissão e fidelidade, e estar de prontidão para cumprir suas ordens à mais leve expressão de seu desejo; ou, se desobedientes, submeter-se aos mais penosos castigos e à própria morte”.

Pois bem, continua o Sumo Pontífice, esses segredos, ocultações, subterfúgios causam forte repugnância à natureza. A razão, portanto, condena as seitas maçônicas como inimigas da justiça e da honestidade natural.

O objetivo da Maçonaria é destruir o Cristianismo (e não só o poder temporal dos Papas) para fundar em seu lugar uma religiosidade naturalista e ecumenista (ibidem). E explica:  “O que Nós dissemos, e estamos para dizer, deve ser entendido com respeito à seita dos maçons tomada genericamente, e tanto quanto ela compreende as associações aparentadas a ela e confederadas com ela, mas não dos seus membros individuais. Pode haver pessoas entre eles, e não poucos que, embora não livres da culpa de terem se enleado em tais associações, ainda assim não são eles mesmos parceiros em seus atos criminosos nem conscientes do objetivo último que eles estão se esforçando por alcançar”. Em resumo, é necessário distinguir o “maçonzinho” da Maçonaria.

O naturalismo é a essência da Maçonaria. Pois bem, o princípio fundamental do naturalismo é a soberania da natureza e da razão sobre a graça e a Revelação. Portanto, chega-se à negação da ordem sobrenatural e da Igreja. Por esse motivo, a seita e os governos inspirados nela perseguem a Igreja e seus sacerdotes, religiosos e religiosas.

Segue-se disso, na doutrina sobre as relações entre Estado e Igreja, que a Maçonaria se fez propugnadora do Estado a-confessional, que hoje se converteu em regra de todos os governos e países.

A luta contra o Papado é constituída por três etapas: a primeira é dirigida, falsamente, contra o poder temporal dos Papas; a segunda, contra o poder espiritual dos Pontífices romanos; e a terceira coincide com o “objetivo supremo dos franco-maçons, que é perseguir com ódio implacável o Cristianismo” (ibidem, p. 389).

A Maçonaria, para ocultar a sua principal intenção, revelada apenas aos iniciados e escondida dos profanos, não obriga o maçom a renegar diretamente a sua fé católica, mas indiretamente lhe impõe o ecumenismo e o relativismo religioso, dos quais nasce o indiferentismo e a paridade de todos os cultos. Como se vê, esse plano se cumpriu em todos os atuais Estados a partir dos anos 70 e penetrou também na mentalidade dos homens da Igreja a partir do Concílio Vaticano II e das diretrizes pós-conciliares.

Para a Maçonaria, a existência de Deus não é certa. Ela coloca, no lugar de um Deus criador de tudo a partir do nada, a existência de um Grande Arquiteto Universal, que pressupõe, como todo arquiteto, a existência de uma matéria a partir da qual se pode edificar uma casa ou um “templo”.

A filosofia da Maçonaria é a kantiana, para a qual não existe um Deus real. É o homem que sente a necessidade íntima de colocar em ato a ideia de um Ente superior que o ajude a viver melhor sua moral autônoma, isto é, que o homem mesmo se dá e que não vem de Deus ou da natureza mesma das coisas. Ademais, nega a existência do pecado original, pois o homem tem uma inteligência perfeita e que tende para a verdade, está dotado de uma vontade pura e não debilitada e nem inclinada para o mal. As forças da natureza são exaltadas e exageradas pelos maçons, que, por isso, afirmam não serem necessárias a graça ou a ordem sobrenatural.

A seita se compromete a corromper os costumes cristãos para ter sob o seu poder uma massa informe e corrupta, inclinada a seguir as suas ordens como instrumento dócil em suas mãos.

Nos planos da Maçonaria, a família deve ser igualmente dissolvida para revolucionar a mesma sociedade civil. Em suma, do Cristianismo já não se deve deixar nenhum vestígio.

A educação dos jovens é retirada das famílias e da Igreja, e deve ser confiada à escola pública, inspirada no liberalismo e no naturalismo maçônico.

Do ponto de vista social e político, a seita prefere o igualitarismo, o liberalismo e a democracia moderna, segundo a qual o poder vem do povo, e não de Deus.

O Papa responde que, como o homem está certo da existência real de Deus, criador do mundo real, e sendo homem, criado por Deus, devendo a Ele adoração e culto, assim o Estado, que é um conjunto de vários homens e várias famílias, deve igualmente a Deus o culto e a adoração contra os falsos princípios do chamado liberalismo católico ou “catolicismo liberal”.

Além disso, como a autoridade e o poder vêm de Deus, o homem deve obedecer a autoridade (contra o anarquismo liberal) como se obedecesse a Deus.

Os erros da Maçonaria deveriam estremecer os Estados ainda conservadores da época leonina (1884). Mas eles já estavam anulados pelo vírus liberal, que abre as portas largamente para o comunismo e para a revolução universal. Nunca uma trágica profecia se cumpriu de forma tão exata como essa.

O fim último da Maçonaria coincide com o do Comunismo. A seita adula os povos e os monarcas “iluminados” para suprimir a Igreja e o Cristianismo.

Assim, o único e verdadeiro antídoto contra a Maçonaria é a Igreja, amiga do bem-estar comum, dos príncipes que governam segundo a lei natural e divina, de modo que príncipes e povos deveriam se unir à Igreja para destruir a seita.

Em particular, é necessário: 1º. retirar a máscara filantrópica por trás da qual se esconde o rosto infernal da seita diabólica; 2º. dar uma sólida instrução religiosa a todos, especialmente aos jovens, de forma que não caiam vítimas dos sofismas maçônico/kantianos.

O Papa conclui, escrevendo que “a ajuda de Deus é necessária para combater e erradicar a Maçonaria” (ibidem, p. 389), e convida finalmente a resistir e rezar.