O mistério da perversidade

Francisco enviou a Gustavo Gutiérrez, ideólogo da Teologia da Libertação, uma carta de felicitação pelo seu nonagésimo aniversário. Nela, o Bispo de Roma o agradece por tudo “o que contribuiu para a Igreja e para a humanidade”.

Encaminhar a Fé, 26 de junho de 2018.

Germán Mazuelo-Leytón.

[https://adelantelafe.com/el-misterio-de-la-perversidad/].

Tradução. Bruno Braga.

 

Francisco, como é pública a informação, enviou a Gustavo Gutiérrez uma carta de felicitação pelo seu nonagésimo aniversário. Nela, o Bispo de Roma o agradece pelo que contribuiu para a Igreja e para a humanidade.

Os progressistas católicos celebraram o fato, afirmando inequivocamente que isso assinala a reabilitação do pai da Teologia da Libertação.

Além disso, Francisco assinou o decreto através do qual declara mártir por ódio contra a fé o Bispo Angelelli, outros sacerdotes e um leigo argentino. Contudo, a morte do Bispo terceiromundista Angelelli não tem origem no martírio. Foi um acidente transformado em crime [1].

Refutando o meu artigo A inoportuna beatificação do Bispo Romero, em abril de 2015 [2], Juan Rubio Fernández qualificou de demencial o escrito no qual afirmei: o anúncio da beatificação do Arcebispo Romero é inoportuna, porque fica claro, muito à margem das virtudes e credenciais de santidade do candidato aos altares, que sua figura é, antes de um modelo espiritual, uma bandeira política, e que por sua vez poderia gerar uma onda de beatificações eclesiais de outros Bispos e sacerdotes que morreram por causa de ideologias e não necessariamente por ódio contra a fé.

  1. O comuno-progressismo.

João XXIII, ao convocar o Concílio Vaticano II, falou da famosa primavera da Igreja. Mas esta “não foi uma nova primavera para a Igreja como havia imaginado o seu promotor, mas foi uma inesperada revolução em todos os setores da Igreja, incluindo o campo social […] Uma profunda simpatia pela solução socialista e inclusive marxista-leninista se impunha ao mundo, que no entanto desconhecia na própria carne a cruel experiência do socialismo real, e fascinava intelectuais e estudantes, sem excluir os seminários e o clero mais jovem. Fidel Castro e Che Guevara eram seus ídolos. […] Os movimentos que se consideravam e proclamavam ‘progressistas’, fortemente intelectualizados, apoiados pelos meios de comunicação, aguçaram a consciência revolucionária (‘conscientização’ era o termo então divulgado por Paulo Freire). Aquele que não comungava com eles era sumariamente desqualificado como reacionário, burguês e conservador” [3].

Com efeito, no início da década de 1960, começou a mexer os seus tentáculos, com contornos mais perceptíveis, aquilo que se transformaria pouco a pouco em uma gravíssima questão, quando um número bastante considerável de personalidades eclesiásticas começou um movimento de progressivo abandono da difusão do autêntico Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, passando pouco a pouco a colaborar na difusão de um contra-evangelho, o contra-evangelho marxista [4], que resultou em uma legião de erros e horrores. Abandonou-se a tradição escolástica e tomista sobre a lei natural, “fundada nas Escrituras”, em favor de novas modas de pensamento científico, teológico e eclesiástico. As “reformas” litúrgicas pós-Vaticano II afetaram profundamente o Santo Sacrifício da Missa, o calendário litúrgico e a música sacra, e alteraram da mesma forma outras ações litúrgicas, os Sacramentos e ritos católicos.

Por exemplo, em 1976, quinhentos sacerdotes colombianos enviaram uma petição ao Vaticano acusando os seus Bispos de estarem aliados com o explorador e contra o explorado. O sacerdote Saturnino Sepúlveda, chefe do grupo marxista “Sacerdotes para a América Latina” então afirmou: Eu vejo Jesus Cristo como o secretário geral do primeiro partido comunista [5].

“A conivência entre comunismo e neomodernismo progressista é uma constante que quase não conhece exceções” [6].

  1. “Marxização” da teologia, gradual na estratégia, radical no objetivo.

Deus é anterior ao homem. O Modernismo (chame Teologia da Libertação) inverte essa ordem fazendo da religião um instrumento antropocêntrico, em vez de teocêntrico.

A partir de Kant e Hegel (principais figuras instrumentais da decadência do pensamento ocidental), as correntes progressistas reduzem a teologia à antropologia, exaltam o homem a um nível superlativo como itinerário corruptor por meio do qual se chega a um suicídio espiritual: um antropocentrismo, um imanentismo, encoberto sob diversas formas instigadas ao saque do celestial.

Assim, nos primeiros anos do pós-Vaticano II, um tempo de agitação e perturbação, irrompeu a “Teologia da Libertação”, sob a influência da “nova teologia”, “principalmente dentro da corrente que toma a sociedade como objeto de seu estudo, mostrando uma tendência ao sociologismo, dando prioridade à sociedade frente ao homem” [7], em que “a palavra redenção é substituída por libertação, que por sua vez é entendida, à luz da história e da luta de classes, como processo de libertação em marcha. Finalmente é também fundamental enfatizar a práxis: a verdade não deve ser entendida em sentido metafísico, pois isso seria ‘idealismo’. A verdade se realiza na história e na práxis. A ação é a verdade. Por conseguinte, as ideias que levam à ação são, em última instância, intercambiáveis. O único decisivo é a práxis. A ortopráxis é a única ortodoxia” [8].

Essa “releitura”, de acordo com o Cardeal Ratzinger no informe citado, nasceu de duas fontes: “o marxismo e a hermenêutica protestante racionalista de Bultmann”.

Os marxistas aplicaram um método profundamente psicológico (e muito efetivo), a saber, o método de graduação. Primeiro, por uma propaganda adequada (durante os retiros espirituais, ‘jornadas’, ‘encontros’, ‘congressos’, etc., e nos artigos dos periódicos teológicos) se efetuou uma ‘lavagem cerebral’, e dessa maneira foram ‘lavadas’ da mentalidade de uma parte do clero a formação e a educação recebidas nos seminários e universidades católicas; depois, já com toda facilidade puderam injetar, com pequenas doses, a cosmovisão marxista e especialmente o conceito marxista de cristianismo” [9].

Essa concepção marxista do cristianismo, buscando a fermentação do marxismo desde os círculos católicos, é insuflada principalmente a partir da Teologia da Libertação, que vem a ser uma ferramenta de subversão, utilizando a religião para favorecer o marxismo.

Em síntese, a abordagem da Teologia marxista da Libertação é a seguinte:

O homem contemporâneo é um escravo do regime capitalista, pois o capitalismo é um regime de exploração e de opressão, e degenera física e moralmente tanto os explorados e oprimidos como também os exploradores e opressores; a revolução marxista é a única força real capaz de libertar o homem do injusto e desumano regime capitalista; por conseguinte, a Igreja, como instituição fundada por Cristo para libertar o homem, deveria não somente apoiar a revolução marxista, mas inclusive identificar-se completamente com ela” [10].

Os ideólogos da Teologia da Libertação assumem o mesmo conceito da revolução marxista, tal como o apresentam os mesmos marxistas, a saber:

Como um processo sociológico permanente, que transforma a sociedade pela luta de classes, que se expressa pelo contínuo aguçamento dos conflitos sociais, as contradições internas da sociedade capitalista e que levam fatalmente à violência, à desordem, ao caos, às lutas armadas e à guerra revolucionária… revolução que deve ser conduzida pelos revolucionários profissionais”.

Em 1971, o presbítero Gustavo Gutiérrez publicou sua obra “A Teologia da Libertação”, na qual “pretende, em primeiro lugar, introduzir um novo conceito de teologia e, em conformidade com esse conceito, depois trata do tema da libertação do homem do regime capitalista, para finalizar o seu estudo com algumas considerações escatológicas muito confusas, nas quais quer identificar ‘o reino de Deus na Terra’ com a sociedade ideal do futuro, edificada pela revolução marxista”. Posteriormente, em 1979, ele publicou “A força histórica dos pobres”, obra que em grande parte “é uma repetição de sua obra principal”, e em uma perspectiva ortodoxamente marxista.

Assim, a obra do agora reabilitado Gustavo Gutiérrez, “’A Teologia da Libertação’, é um claro e decisivo ato de compromisso com a revolução marxista, guardando cuidadosamente todas as aparências de fidelidade à teologia tradicional e ao ensinamento oficial da Igreja”.

Gutiérrez disse: “a revolução é apenas uma parte do todo, o todo mesmo é a criação ‘de uma nova forma de ser homem, uma revolução cultural permanente’” [11].

Gutiérrez se vê chamado a abrandar as diferenças entre Igreja e mundo, entre natureza e graça, entre cristãos e não-cristãos, entre Reino e libertação humana, e entre história da salvação e história profana.

“Teologia pródiga em frases ambíguas, que poderiam admitir uma interpretação católica, mas que em seu contexto significam outra coisa. Por exemplo, esta sentença de Gustavo Gutiérrez: a ação libertadora de Cristo […] está no coração do fluir histórico da humanidade, a luta por uma sociedade justa se inscreve plenamente e por direito próprio na história salvífica. Gutiérrez não pretende afirmar simplesmente que Cristo é o centro da história e o seu Senhor, e que por isso já está cristificada, por assim dizer, e que a ação libertadora – dentro ou fora da graça, dos Sacramentos, da Igreja – é de Cristo ipso facto, o é enquanto libertadora, e que a luta por uma sociedade mais justa – socialista – é salvífica em si, aonde e quando se dê” [12].

Gustavo Gutiérrez, em sua busca, conduziu-nos para longe da teologia, se é certo que esta é um discurso da razão imerso na luz da fé para iluminar as coisas da fé; um discurso que assume plenamente que a verdade da fé não pode ser superada pela razão [13].

A “esquerda católica” foi sempre o “idiota útil” dos objetivos do comunismo através da Teologia da Libertação, a veia mediante a qual o marxismo fez correr o seu veneno revolucionário entre os Bispos, sacerdotes, religiosas e “leigos de base”, muitos dos quais empunharam armas, unindo-se às guerrilhas na Bolívia, Uruguai, Argentina, Nicarágua, Peru, El Salvador, com a bandeira de “uma ‘releitura sul-americana’ da Escritura, ou releitura ‘situada’ na perspectiva da práxis libertadora da América Latina. Tal exegese nos revela em Jesus ‘o Cristo libertador’, isto é, o ‘subversivo de Nazaré’ comprometido ativamente na luta de classe de sua época, e que morreu esmagado pelo establishment burguês (romano-fariseu) como mártir da causa do pobre. Também a Igreja se supõe radicalmente atravessada pela luta de classe: pelo conflito dialético entre a Igreja hierárquica e sacramental – que expressa os interesses da burguesia – e a ‘Igreja popular’, que fez a opção pela causa proletária” [14].

III. Tribalismo marxista.

Já em 1928, – como recorda o padre Miguel Poradowski – “o Sexto Congresso da Terceira Internacional Comunista instruiu os partidos comunistas da América Latina para que aproveitassem o tribalismo para a revolução marxista. É doloroso constatar que, o que o comunismo internacional não pôde realizar servindo-se somente de seus partidos comunistas, hoje está conseguindo plenamente com a manipulação para esse propósito de uma parte do clero católico” [15].

O protestantismo dos tempos de Lutero se apresentou como uma volta ao paganismo (germânico). Há algo disso no catolicismo de hoje? Desgraçadamente, sim… Mas, aqui é preciso constatar um fenômeno gravíssimo, presente sobretudo na América Latina: a volta consciente às crenças pagãs das culturas primitivas, e com o agravante de que não se trata apenas de algumas ocorrências espontâneas da parte do “povo”, mas de esforços criminosos (pois é um crime contra a religião revelada) por parte de um grupo do clero. Existem, pois, sacerdotes e Bispos que se dedicam a “ressuscitar” artificialmente essas crenças pagãs e a integrá-las no Credo da fé católica e na Liturgia, inclusive na Santa Missa. Trata-se do “tribalismo”.

Neste caso, a volta ao paganismo dentro da Igreja Católica é um fenômeno muito mais condenável que a volta ao paganismo do protestantismo nos tempos de Lutero, pois esta última foi ao contrário espontânea, instintiva e subconsciente, enquanto que no atual caso latino-americano não se trata das reações espontâneas, instintivas e subconscientes dos fiéis de origem tribal – o que às vezes ocorre também, mas é um fenômeno compreensível e, portanto, perdoável -, mas trata-se de uma ação deliberada, chamada “pastoral”, de alguns Bispos, o que é criminoso também no estrito sentido jurídico, pois é punido pelo Direito Canônico; mas, apesar disso, atualmente está sendo tolerado pelas autoridades eclesiásticas correspondentes, como qualquer aberração que se faça sob o pretexto do “pastoral” ou “ecumênico”. Isso prova que atualmente na Igreja estão presentes critérios protestantes [16].

Para aniquilar a Civilização Cristã, as mesmas forças da Revolução que articularam a revolução comunista sofisticam a revolução do paganismo tribal: desmoronamento do pudor, o rápido desaparecimento das fórmulas de cortesia… É a quarta etapa que vivemos hoje. Também essa IV Revolução quer tribalizar a esfera espiritual: correntes teológicas e canônicas que buscam transformar a estrutura eclesiástica em um tecido cartilaginoso, amorfo, “em que a firme autoridade canônica vai sendo gradualmente substituída pela ascensão dos “profetas” mais ou menos pentecostalistas, congêneres eles mesmos dos feiticeiros do estruturalismo-tribalismo, em cujas figuras acabaram por se confundir. Como também a tribo-célula estruturalista será confundida necessariamente com a paróquia ou a diocese progressista-pentecostalista [17].

  1. A infiltração comunista na Igreja não é recente, tampouco menos grave.

Antes da realização do Concílio Vaticano II, a Igreja Católica e os Bispos católicos constituíam a vanguarda da resistência contra o comunismo. Hoje, em toda parte, os eclesiásticos e intelectuais católicos se converteram nos promotores e na vanguarda da Teologia da Libertação.

O mistério da iniquidade consiste precisamente em que o “Aparato público da Igreja”, que deveria servir para levar as almas a Jesus Cristo, serve ao contrário para perdê-las e escravizá-las ao demônio. Aqui está o ‘mistério da perversidade’: que o sal se corrompa e deixe de salgar (Mt. 5, 13)” [18].

NOTAS.

[1]. Cf. [http://www.quenotelacuenten.org/2018/06/10/angelelli-el-crimen-que-fue-un-accidente/].

[2] Cf. [ https://adelantelafe.com/inoportuna-beatificacion-del-obispo-romero/ ].

[3]. Cf. KLOPPENBURG OFM, Mons. BOAVENTURA, América Latina.

[4] Cf. A Igreja do silêncio no Chile .

[5]. Time, 15 de novembro de 1976.

[6]. SACHERI, CARLOS A., La Iglesia clandestina.

[7] Cf. PORADOWSKI, P. MIGUEL. Marxismo em teologia .

[8]. Cf. MESSORI, VITORIO. Informe sobre la fe. Entrevista ao cardenal Ratzinger.

[9] Cf. PORADOWSKI, P. MIGUEL. Marxismo em teologia .

[10] Ibid.

[11] GUTIÉRREZ, GUSTAVO. Teologia da libertação , p. 62

[12] IBAÑEZ LANGLOIS, JOSÉ MIGUEL, Teologia da libertação e luta de classes .

[13]. JOURNET, CHARLES. Introdução à teologia .

[14] José Miguel Ibañez Langlois. Doutrina Social da Igreja .

[15]. Cf. KOLARZ, WALTER. Comunismo e colonialismo.

[16] Cf. PORADOWSKI, P. MIGUEL. A atual protestantização do catolicismo .

[17] Cf. CORREA DE OLIVEIRA, Prof. PLINIO Revolução e Contra-Revolução .

[18] MEINVIELLE, P. JULIO. Da Cabalá ao Progressismo .