Fátima

História das aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima em 1917, pela tradução da entrada "Fátima (Portugal)", contida no "Dicionário de 'Aparições' da Virgem Maria", de autoria de René Laurentin e Patrick Sbalchiero.

 

I- As aparições

II- As consagrações renovadas pelos papas

III- Os segredos

IV- Conclusão

 

 

Pastorinhos de FatimaAs aparições de Fátima são aquelas com as quais a autoridade da Igreja mais se ocupou. Os papas pronunciaram e recomeçaram várias vezes a consagração “pedida pela Virgem”, que a vidente julgava incompleta: repetição única na história do papado. Dois papas fizeram peregrinação a Fátima: Paulo VI (em 1967) e João Paulo II (três vezes, no dia 13 de maio de 1982, 1991 e 2000)1.  

Eis os principais fatos e problemas:

1) Relato cronológico das aparições.

2) As consagrações.

3) O problema crítico, levantado pelo padre Dhanis: haveria “duas” Fátimas (Fátima I e Fátima II)? Quais pontos ainda constituem um problema? Seriam eles heterogêneos?2

4) Os segredos.

 

 

 

 

 

1 Após a última edição deste dicionário, o Papa Bento XVI também foi a Fátima, no dia 13 de maio de 2010.

Esta seção será disponibilizada em separado para aqueles que desejem se aprofundar no problema crítico levantado pelo padre Dhanis.

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I- As aparições

a) O anjo

1) Em 1915, Lúcia dos Santos (oito anos, nascida a 22 de março de 1907, falecida a 13 de fevereiro de 2005), na companhia de três outras pastoras (Teresa, Maria Rosa Matias e Maria Justino), vê, sobre uma colina plantada com oliveiras, diante do vilarejo de Aljustrel, “uma figura, como se fosse uma estátua de neve, que os raios do sol tornavam algo transparente”:       

“- O que é aquilo? perguntam as minhas companheiras, meio assustadas.           

– Não sei.”         

A história se espalha e Lúcia repete essa resposta aos curiosos.

2) Na primavera de 1916, Lúcia guarda o rebanho com Francisco Marto (11 de junho de 1908 – 4 de abril de 1919), seu primo de nove anos, e Jacinta (10 de março de 1910 – 20 de fevereiro de 1920), irmã de Francisco, de seis anos. Ela os conduz na oração. Todos os três veem avançar na sua direção a mesma “figura de luz”:           

“Um jovem dos seus 14 a 15 anos, mais branco que se fora de neve, que o sol tornava transparente como se fora se cristal, e duma grande beleza. Ao chegar junto de nós, disse:

– Não temais. Eu sou o Anjo da Paz. Orai comigo.           

E, ajoelhando em terra, curvou a fronte até ao chão, e fez-nos repetir, três vezes, estas palavras:           

– Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-vos! Peço-vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e vos não amam. […] Santíssima Trindade, – Pai, Filho e Espírito Santo, – ofereço-vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido”.           

“Era de Luz”, dizia Lúcia ao cônego Barthes.         

Trata-se então de um anjo, com a aparência de um jovem.

3) No verão de 1916, o anjo lhes diz:

“- Que fazeis? Orai, orai muito! Os Corações Santíssimos de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.

– Como nos havemos de sacrificar? – perguntei.

– De tudo que puderdes, oferecei a Deus sacrifício, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e súplica pela conversão dos pecadores. Atraí assim, sobre a vossa pátria, a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai, com submissão, o sofrimento que o Senhor vos enviar.”

4) A última aparição, terceira de 1916, acontece em setembro, na Pregueira, aonde eles conduziram seu rebanho, sobre a encosta sul do Cabeço.

Lúcia continua:

“Logo que aí chegamos, de joelhos, com os rostos em terra, começamos a repetir a oração do Anjo: ‘Meu Deus! Eu creio […]’. Não sei quantas vezes tínhamos repetido esta oração, quando vemos que sobre nós brilha uma luz desconhecida. Erguemo-nos para ver o que se passava, e vemos o Anjo, tendo na mão esquerda um cálix, sobre o qual está suspensa uma hóstia, da qual caem algumas gotas de sangue dentro do cálix. O Anjo deixa suspenso no ar o cálix, ajoelha junto de nós, e nos faz repetir, três vezes:

– Santíssima Trindade, – Pai, Filho e Espírito Santo – ofereço-vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E, pelos méritos infinitos do seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores.

Em seguida, ele se levanta e toma em suas mãos o cálix e a hóstia. Dá-me a sagrada hóstia a mim, e divide o sangue do cálix entre a Jacinta e o Francisco, dizendo ao mesmo tempo:

– Tomai e bebei o corpo e sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos! Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus.

De novo se prostrou em terra, e repetiu conosco, mais três vezes, a mesma oração: ‘Santíssima Trindade’, etc. E desapareceu.”

Francisco tem dificuldade para ouvir as mensagens, mas por outro lado é aquele que mais vai se empenhar na penitência, e não sem excessos, como quando se privou de água durante o verão, o que pode ter contribuído para a sua morte prematura em 1919. E esse fato era comovente no momento em que a gripe espanhola matava inúmeras crianças. As aparições haviam produzido nos videntes uma impressão profunda, mas eles guardavam um silêncio prolongado, pois a mensagem ultrapassava sua cultura e idade, tratando-se de uma teologia simples e incontestável. Durante os anos 40, o Pe Jongen fica intrigado com esse comportamento. Lúcia então afirma: “Se esse padre tivesse vivido o que nós vivemos, ele compreenderia.”

b) As seis aparições da Virgem (13 de maio – 13 de outubro de 1917)

Na primavera de 1917, durante o quarto ano da Primeira Guerra Mundial, iniciam-se as seis aparições da Virgem Maria aos três videntes. As aparições se estendem por seis meses sucessivos, de maio a outubro (com a exceção de agosto, como veremos a seguir), e sempre no dia 13.

1) No dia 13 de maio de 1917, domingo anterior à festa da Ascenção, após a missa matinal, os três pastorinhos conduzem seu rebanho à Cova da Iria. Um raio os surpreende. Seria uma tempestade?

“É melhor voltarmos para casa”, Lúcia diz a seus primos.           

Descendo a ladeira perto de um grande carvalho verde (azinheira), brilha um novo raio, e então eles veem sobre um “pequeno carvalho verde” (carrasqueira) uma dama vestida de branco mais brilhante que o sol, espargindo uma luz intensa:      

“Paramos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto que ficamos dentro da luz que a cercava, ou que Ela espargia. Talvez a metro e meio de distância, mais ou menos. […] Parece-me que devia ter de 18 a 20 anos.”

“Não tenhais medo”, Ela diz.

Eis o essencial das palavras deste dia:

“- Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois, voltarei ainda aqui uma sétima vez.           

– E eu também vou para o Céu? [- Lúcia pergunta.]           

– Sim, vais.           

– E a Jacinta?           

– Também.           

– E o Francisco?           

– Também; mas tem que rezar muitos terços.”           

Em seguida Ela conclui:           

“- Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?         

– Sim, queremos.       

– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.”           

Neste momento, ela estende as mãos, e todos se sentem penetrados por sua luz. Ela os faz prometer que não contariam nada a ninguém, mas Jacinta não resiste e conta tudo a sua mãe.

2) No dia 13 de junho, a aparição recomenda de novo às três crianças que rezem o terço todos os dias.

“Ele [Jesus] quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração.” O anjo havia mencionado duas vezes o “Coração de Jesus” e o “Coração de Maria”, e é a Deus que a Virgem havia pedido que os pastorinhos se oferecessem; nós reencontraremos mais adiante essas suas formas concorrentes de expressão.

3) No dia 13 de julho, a Virgem insiste em que se reze o rosário pela paz, conforme a recomendação recente de Bento XV (5 de maio de 1917). É neste dia, de acordo com os relatos tardios de Lúcia, que ela recebe o segredo em suas três partes. (Nós trataremos da famosa terceira parte no fim do artigo.)

Por esta época a imprensa intervém. No dia 28 de julho, o jornal de Vila Nova de Ourém, o Ouriense, divulga a notícia. Um segundo artigo (prudente), obra do cura decano J. Ferreira, traz um título profético: Uma segunda Lourdes. No dia 23 de julho, O século, liberal, leva a manchete: Uma embaixada celeste: especulação financeira?

O administrador do Conselho de Vila Nova de Ourém, presidente da loja maçônica, reage. A 11 de agosto, ele convoca os pais das videntes e Lúcia. Jacinta diz a Lúcia:

“Se eles te matarem, dize-lhes que eu e mais o Francisco somos como tu, e que também queremos morrer.”

Depois de longos interrogatórios, os videntes são sequestrados. Eles são libertados apenas no dia 15 de agosto, dois dias após a aparição perdida do dia 13.

4) Libertados, eles seguem para Valinhos no domingo, dia 19 de agosto. O raio habitual se produz. Eles veem a Virgem, e Lúcia, inquieta por ter faltado no dia 13, pergunta de imediato:

“- Que é que Vossemecê me quer?

– Quero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13; que continueis a rezar o terço todos os dias. No último mês, farei o milagre para que todos acreditem. Em outubro virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo, São José com o Menino Jesus, para abençoarem o mundo. Virá Nosso Senhor para abençoar o povo. Virá Nossa Senhora do Rosário com um pequeno anjo de cada lado. Virá Nossa Senhora das Dores com um arco de flores à sua volta.

– Que é que Vossemecê quer que se faça ao dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?

– Façam dois andores (…) para a festa de Nossa Senhora do Rosário; e o que sobrar é para a ajuda duma capela, que hão de mandar fazer.”

Lúcia também pede a cura de muitos doentes, e recebe esta resposta:

“Sim; alguns curarei durante o ano.” E acrescenta, agora tomando um aspecto mais triste: “Rezai, rezai muito; e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o Inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas.”

5) No dia 13 de setembro, diante do pedido insistente de Lúcia, Maria lhe responde:

“Continuem a rezar o terço para alcançarem o fim da guerra. Em outubro virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo, São José com o Menino Jesus, para abençoarem o mundo.”

E Nossa Senhora confirma mais uma vez:

“Em outubro farei o milagre para que todos acreditem.”

6) No dia 13 de outubro, 50.000 pessoas se reúnem. É a primeira multidão de Fátima. Segundo a quarta memória (a mais Fieis Aparição em Fatimacoerente), a Virgem responde ao pedido habitual de Lúcia:

“Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra; que sou a Senhora do Rosário; que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar, e os militares voltarão em breve para suas casas.”

Duas testemunhas – Ferreira e Lacerda – dão esta variante: “A guerra termina hoje.” Na verdade, a guerra terminará no dia 11 de novembro do ano seguinte.

Lúcia pede de novo pelos doentes e pela conversão de alguns pecadores. A Virgem responde:

“Uns, sim; outros, não. É preciso que se emendem; que peçam perdão dos seus pecados”. E, triste, Ela acrescenta: “Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido.”           

Milagre do SolEm seguida, a Virgem abre as mãos, que se refletem no sol; e enquanto se eleva, o reflexo de sua luz continua a projetar-se no sol (quarta memória de Lúcia). Para a multidão, o céu carregado se limpa. “O sol dança”. Ele gira sobre si mesmo, como uma roda fulgurante, como “um fogo de artifício”. Ele colore a paisagem de azul, amarelo, vermelho, verde: todo o arco-íris. O fenômeno se interrompe e recomeça em seguida; na terceira e última vez, acontece com uma rapidez prodigiosa, lançando feixes de luz multicolor até que o sol parece “se aproximar da terra, como para esmagá-la”. A multidão fica aterrorizada. Muitas pessoas se jogam sobre o chão lamacento rezando o Pai-Nosso e a Ave-Maria.

O repórter do jornal liberal de Lisboa, O Século, um antigo seminarista que se tornara anticlerical, descreve objetivamente o fenômeno, contrariando suas expectativas:

“A chuva cessa, e […] o que se assiste então é um espetáculo único, inacreditável para que não estava presente. Do alto da estrada, onde se acumulam carroças fazendo as vezes de bancos […] vê-se a multidão virar-se para o sol, que aparece limpo de nuvens no zênite. Ele parece uma placa de prata fosca, e é possível fixá-lo sem o menor esforço. Não queima os olhos, nem cega. Dir-se-ia um eclipse. E ouve-se um clamor colossal: ‘Milagre! Milagre!’

Deslumbrado, o povo, […] tomado de assombro, a cabeça descoberta, contempla o azul do céu: o sol treme, o sol move-se bruscamente, fato contrário a todas as leis cósmicas: ‘o sol dançou’, conforme a expressão típica dos camponeses.”

O doutor José Xavier Proença de Almeida Garrett, professor da universidade de Coimbra, testemunha mais detalhadamente em seu longo relato:

“Uma coluna de fumaça, delgada, tênue e azulada, sobe a cerca de dois metros acima das cabeças e se esvanece nesta altura. Este fenômeno […] dura alguns segundos […]. A fumaça se dissipa bruscamente e, depois de um certo tempo, o fenômeno se repete uma segunda, e depois uma terceira vez”.

O testemunho do professor Garrett é o mais notável. Ele observou o fenômeno a partir de uma “perspectiva serena e fria”.

“Eram quase duas horas (hora legal, isto é, pouco depois de meio-dia, hora solar), o sol, alguns instantes atrás, havia atravessado o leito denso de nuvens que até então o escondia, e brilhava intensamente. Virei-me para o ponto de atração de todos os olhares, e pude ver o sol semelhante a um disco com arestas vivas, luminoso e brilhante, mas que luzia sem ofuscar os olhos.

Tratava-se de uma cor mais clara, mais rica, com cambiantes […]. Via-se e sentia-se o sol como um astro vivo […].

A abóbada celeste estava salpicada de nuvens ligeiras com frestas de céu azul aqui e ali, mas o sol se destacava muitas vezes sobre os trechos de céu límpido. As nuvens que corriam ligeiras do poente ao nascente não roubavam a luz do sol (que não feria os olhos) e davam a impressão facilmente compreensível e explicável de que passavam atrás do sol […].”

Ele anota ainda:

“Durante duas breves interrupções, o sol dardejou raios mais brilhantes e ofuscantes, ao ponto de que a plateia teve que voltar os olhos durante cerca de dois minutos.”

Ele também descreve longamente o movimento vertiginoso:

“De repente vibra um grito de desespero de todo o povo: sem relaxar a rapidez de sua rotação, o sol vermelho-sangue destacou-se do firmamento e avançou sobre a terra: ele ameaçou nos esmagar sob o peso de sua imensa massa flamejante. Foram segundos aterrorizantes. […]

Temendo sofrer algum dano na retina […],virei-me, fechei os olhos e os cobri com as mãos para interceptar a luz. Ficando assim de costas para o sol, abri os olhos e percebi que a paisagem e o ar tinham a mesma cor violeta de antes.”

Seria isto uma variante de eclipse?, ele se pergunta. Nos dias seguintes, tendo a ocasião de observar um, ele nota apenas uma analogia: “as manchas amarelas nos contornos irregulares”, mas totalmente diferentes. No dia em questão, nenhum observatório registrou qualquer anomalia no sol: não se tratava portanto de um fenômeno astronômico, mas de outra ordem: atmosférico…? Restam as hipóteses.

Uma centena de testemunhos estão de acordo sobre o fato e sobre os pontos fundamentais. As variantes se concentram nas colorações do sol, o que se explica de diversas maneiras. A opinião pública, impressionada com o acordo dos testemunhos, foi localmente abalada.

Os testemunhos discordantes são raros e isolados: a senhora Isabel Brandão de Melo escutou bem os gritos da multidão, mas não viu nada. Por outro lado, pessoas distantes da Cova da Iria viram o fenômeno, notadamente o poeta Alfonso Lopes Vieira, que se encontrava em São Pedro de Muel, pequena praia distante 40 km a leste de Leiria.

c) Destino posterior dos videntes

Desde então, os videntes são submetidos a inúmeros interrogatórios.

Francisco morre no dia 4 de abril de 1919. Jacinta, constante na penitência, morre dez meses mais tarde, no dia 20 de fevereiro de 1920.

Somente Lúcia sobrevive. Conforme os conselhos do bispo, ela deixa Fátima no dia 16 de junho de 1921. Entra como postulante no convento das Irmãs de Santa Doroteia, em Pontevedra, Espanha, no ano de 1925. Professa seus votos em Tuy, no dia 10 de dezembro de 1928.

Em 1948, desejosa de oração e silêncio, Lúcia entra para o Carmelo de Coimbra (Portugal), sua última residência, onde vive na discrição que lhe foi pedida e que ela desejava.

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II- As consagrações renovadas pelos papas

De Pio XI a João Paulo II, todos os papas foram solicitados para pronunciar ou renovar a consagração do mundo, e mais particularmente da Rússia, aos Santíssimos Corações de Jesus e de Maria, para o fim das perseguições na URSS e a conversão da Rússia, sob formas diversas cujas variantes veremos adiante.

a) Pedido infrutuoso a Pio XI

A partir de novas comunicações de Jesus e Maria a Lúcia, e após lentos contatos com seu confessor, o padre Gonçalves, e Dom Da Silva, bispo de Leiria, os bispos portugueses consagram Portugal ao Imaculado Coração no dia 13 de maio de 1931. Felizes por terem escapado ao comunismo, à perseguição e ao martírio de padres e religiosas, os bispos renovam a consagração em Fátima. Em 1937, eles transmitem o pedido de Lúcia a Pio XI:

“Pela aparição de Nossa Senhora […], Deus promete pôr um fim à perseguição na Rússia, caso Vossa Santidade se digne a fazer – e ordena a todos os bispos do mundo católico que também o façam – um ato solene e público de reparação e de consagração da Rússia aos Santíssimos Corações de Jesus e Maria, e de aprovação e recomendação da prática da devoção reparadora” (a comunhão dos primeiros sábados do mês). Carta publicada por D. Fernandez em Rusia, 1990.

Seguindo a tradição de reserva da Santa Sé diante das revelações privadas, Pio XI não acedeu ao pedido.

b) Pio XII

No dia 24 de outubro de 1940, a pedido do bispo de Leiria, Lúcia escreve uma carta a Pio XII, mas se abstém de evocar a consagração da Rússia ao Imaculado Coração; ela conserva somente a passagem em que pede de maneira menos abrupta a consagração do mundo – e por conseguinte da Rússia –, o que abranda a dificuldade diplomática que haveria em consagrar um Estado oficialmente ateu. Guardou-se a minuta autógrafa de Lúcia, com data de 24 de outubro de 1940.

1) Fátima estava então melhor conhecida e apreciada em Roma. Pio XII se resolve a pronunciar a consagração demandada (31 de outubro de 1942):

“A vosso Imaculado Coração […], nesta hora trágica, nós confiamos, entregamos e consagramos, não somente a Santa Igreja […], mas também o mundo inteiro […]. Aos povos apartados pelo erro, pela discórdia, particularmente aqueles que professam por Vós uma singular devoção e entre os quais não havia uma casa sequer que não honrasse vossa sagrada imagem, hoje talvez escondida […], dai-lhes a paz.”

O papa pronunciou esta consagração publicamente, mas não se viu no direito de mencionar nominalmente a Rússia, nem de ordenar aos bispos que o acompanhassem. Lúcia fez com que ele soubesse que a consagração estava incompleta.

2) No dia 8 de dezembro de 1942, Pio XII, informado do parecer de Lúcia, reiterou mais solenemente, na Basílica de São Pedro, em Roma, a primeira consagração do dia 31 de outubro.

Porém, no dia 4 de maio de 1943, Lúcia fez saber que a consagração não havia sido formulada nos termos requeridos. A Rússia não tinha sido mencionada nominalmente. O ato do papa era positivo e não sem frutos, admitia Lúcia: “O Bom Deus […] promete em resposta o fim próximo da guerra. Mas como o ato foi incompleto, a conversão da Rússia fica para mais tarde”.

Lúcia reitera várias vezes este veredito, mas sem precisar em quê o ato estava incompleto:

“A conversão da Rússia não vai acontecer agora”, dizia ela de acordo com J. Alonso (Marie sous le symbole du coeur, p. 55). “A consagração, tal como a Virgem a pediu, não foi feita”, conforme D. Fernandez (Rusia, p. 90).

3) No dia 7 de julho de 1952, Pio XII procedeu então pela terceira vez à consagração, com menção explícita à Rússia:

“Do mesmo modo que há poucos anos nós consagramos todo o gênero humano ao Imaculado Coração de Maria, assim, hoje, nós confiamos e consagramos de modo muito particular, ao mesmo Imaculado Coração, todos os povos da Rússia” (Carta apostólica Sacro Vergente Anno).

Tratava-se de um documento menor, sem ordem para os bispos do mundo inteiro, e de novo Lúcia fez saber discretamente que esta consagração era insuficiente:

“Sofro pelo fato de que a consagração da Rússia ainda não tenha sido feita tal como Nossa Senhora a pediu” (J. Alonso, Maria, p. 56; Fatima ante la Esfinge, p. 120).

O que faltava desta vez era que o papa não havia dado ordem a todos os bispos e pronunciado a consagração “em união com eles”, de acordo com a requisição de 1929.

Este novo ato fora feito como um complemento à consagração colegial do dia 8 de dezembro de 1942.

4) Na encíclica Ad coeli Regina, de 11 de outubro de 1954, Pio XII se adequa à demanda. Ele dá “ordem a todos os bispos de renovar a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria”.

Trata-se de uma ordem: o papa emprega a fórmula “jubemus”. Isso acontece no ano mariano em que estabelece a festa da realeza de Maria. Mas a Rússia não é nomeada por razões diplomáticas. Seria suficiente a menção nominal da terceira redação?

c) A abstenção dos dois papas seguintes

João XXIII, igualmente solicitado, manteve-se na reserva tradicional da Santa Sé e recusou-se a divulgar o terceiro segredo de Fátima em 1960, como a Virgem havia pedido, de acordo com Lúcia.

No Concílio Vaticano II, os bispos multiplicaram as petições ao papa Paulo VI, tanto para que ele proclamasse ou definisse Maria como Mãe da Igreja, como para que ele completasse, do cimo do colegiado, a consagração pedida em Fátima. Paulo VI, pelas mesmas razões, não deu uma satisfação moral a esta urgente demanda. Depois de ter promulgado a principal constituição do concílio sobre a Igreja, ele proclamou Maria como Mãe da Igreja, não tendo o texto conciliar satisfeito plenamente as sugestões urgentes sobre este ponto.

Quanto à consagração, ele se limitou a “retomar” as consagrações de Pio XII, mas compensou sua recusa concedendo ao santuário de Fátima a “rosa de ouro”, que foi transportada por uma embaixada solene.

d) As consagrações de João Paulo II

João Paulo II, instado como João XXIII por novos pedidos de consagração da Rússia, mas ocupado com muitas outras prioridades, não consentiu mais que seus dois predecessores. Ademais, ele considerava delicado recomeçar a consagração levada a cabo quatro vezes por Pio XII, que havia se esforçado para preencher todos os pontos indicados por Lúcia; poderia parecer que ele a estava desqualificando.

Após o atentado de 13 de maio de 1981 (sexagésimo quarto aniversário da primeira aparição de Fátima), quando teve a convicção de ter sido “preservado” da morte por Nossa Senhora, João Paulo pediu que o doutor Poltavska lesse, sobre seu leito no hospital Gemelli, as requisições de Fátima. Em seguida ele pede à Congregação para a Doutrina da Fé o famoso terceiro segredo e, tendo em vista as contestações persistentes de Lúcia, toma a iniciativa de realizar a consagração, a começar por uma oblação votiva (affidamento) da Igreja a Maria. Os mariólogos (Bertetto, S. de Fiores, Laurentin) observaram que ele havia preferido o termo affidamento, mais preciso: como não se adora senão a Deus (o Concílio Vaticano II o recordou, n? 66), só existe consagração propriamente dita a Deus e para Deus, pois consagração no sentido estrito significa “divinização pelo Amor criador”.

No dia 8 de dezembro de 1981, sete meses após o atentado, João Paulo reitera a consagração, desta vez com uma referência explícita a Fátima:

“No curso dos difíceis anos da última guerra mundial, o papa Pio XII consagrou o gênero humano ao Imaculado Coração de Maria inserindo, nesta consagração, os povos particularmente caros à Mãe de Deus: os povos da Rússia.

Nestes tempos […] em que a paz é incessantemente ameaçada, parece que se deva, uma outra vez, recorrer ao Espírito Santo pelo Imaculado Coração da Mãe de Deus. Deste modo, no dia de Pentecostes, o ato de abandono (affidamento) à Imaculada Mãe de Deus foi pronunciado em testemunho do amor que a Igreja nutre por Maria […]; affidamento que a Mãe de Deus parece esperar de maneira particular. Este ato de abandono, nós o repetimos hoje.”

Ainda não era mais que uma prévia do coração, como garantia das consagrações oficiais, enquanto ele preparava a renovação colegial da consagração, após uma nova consulta a Lúcia.

No dia 20 de abril de 1982, três semanas antes de sua viagem de aniversário, João Paulo mandou que se enviasse, pelo seu Secretário de Estado, uma carta circular convidando todos os bispos a se unirem à consagração que ele pronunciaria no dia 13 de maio seguinte.

1) No dia 13 de maio de 1982, sobre a esplanada transbordante de uma multidão sem precedentes, ele pronunciou a consagração nestes termos: “Recebe o apelo […] que nós enviamos diretamente a teu Coração e a teu amor de Mãe e de Serva. Abraça o nosso mundo humano que nós te oferecemos e te consagramos, pleno de inquietudes […], e, de uma maneira especial, os homens e as nações que têm particularmente necessidade desta oferenda e desta misericórdia” (aqui o papa fez um tempo de silêncio para nomear a Rússia, mas silenciosamente no seu coração, a fim de evitar qualquer incidente e qualquer problema diplomático).

– A consagração de ontem foi satisfatória? perguntaram a Lúcia, no dia 14 de maio, Monsenhor Hnilica e Dom Luigi Bianchi.

– Não, ela responde, e por duas razões: os bispos do mundo inteiro não fizeram ao mesmo tempo uma consagração pública e solene, cada um na sua catedral. Ademais, a Rússia não aparece nitidamente como objeto da consagração.

2) No dia 16 de outubro de 1983, durante a missa concelebrada com os padres do Sínodo (representação oficial universal do colégio apostólico), João Paulo II reitera a consagração, em termos análogos, com variantes estilísticas equivalentes, notadamente na alternância das palavras “consagração” (preferida por seu amigo Monsenhor Hnilica) e “affidamento” (preferida pelos teólogos), a fim de explicitar e nuançar o primeiro termo pelo segundo. Em todo caso, não era ainda a consagração “simultânea” de todos os bispos conforme os termos insistentes de Lúcia.

No dia 8 de dezembro de 1983, enfim, o papa convida formalmente os bispos do mundo inteiro a que se unam a ele para pronunciarem a consagração pedida pela Virgem Maria.

3) No dia 24 de março de 1984, na festa da Anunciação (fixada para o dia 25 pela Santoral, mas antecipada tendo em vista o domingo da quaresma), João Paulo II reitera a consagração em termos análogos.

Desta vez igualmente, a Rússia não foi explicitamente nomeada (e sempre por razões diplomáticas), mas os bispos do mundo inteiro foram prevenidos formalmente e a tempo (diferentemente do que aconteceu em 13 de maio de 1982; Lúcia havia feito uma contestação sobre este ponto). Além disso, os primeiros indícios da perestroika se tinham manifestado: o que parece ter convencido Lúcia de que enfim a consagração estava completa. O fim das perseguições na Rússia aconteceu logo em seguida.

Eu renovei o estudo dessas consagrações sucessivas em vários pareceres, pedidos pelo cardeal Sin, das Filipinas, e resumidos no livro Como a Virgem Maria lhes deu a liberdade. Vários comentários, artigos e obras serviram de epílogo ao satisfecit (satisfeito) de Lúcia, manifesto pelas suas cartas de 1989, reproduzidas nessa mesma obra, na página 87. Os irredutíveis contestaram a autenticidade dessas cartas apoiando-se sobre pretensas confidências da vidente, e continuaram a dizer: “A consagração não foi válida; ainda está por fazer.”

Ao fim de um estudo de conjunto dos pontos discutidos, ver-se-á mais claro, e haverá ocasião para a análise das condições requeridas por Lúcia1.

1 De fato, perdura a polêmica sobre a validade da consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Há ainda muitos apostolados fatimistas que ainda pedem a consagração com todos os requisitos, inclusive com a menção explícita à Rússia.

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III- Os segredos

Os segredos de Fátima constituem outro problema. Eles foram bem guardados, mas estimularam a curiosidade e suscitaram uma efervescência estéril.

Desde o tempo do concílio, eu lamentei que se diferisse a revelação dos segredos. Cheguei a propor um meio discreto para revelá-los sem barulho nem publicidade, como o fiz em outros casos (sobre Lourdes ou Pontmain, quando havia o temor de que os segredos criassem agitação ou escândalo). Além disso, ressaltei como o interesse passional pelos segredos decairia quando fossem revelados, inclusive com relação ao terceiro segredo, que havia suscitado até o desvio de um avião para que se obtivesse a publicação. Tudo isso convida a considerar o problema com um recuo na história.

Lúcia declarou firme e constantemente que o segredo em três partes, a ser transmitido por ela no futuro, lhe havia sido revelado durante a aparição de 13 de julho de 1917.  A partir de 1925, novas mensagens lhe pediram progressivamente a revelação das três partes do segredo, o que ela faria, para as duas primeiras partes, no dia 31 de agosto e 8 de dezembro de 1942; chegando ao terceiro segredo, ela interrompe sua redação com um “etc.” (Documentos, p. 219 e 239).

– O primeiro segredo

A primeira parte do segredo – a revelação do inferno – já foi apresentada acima juntamente com a aparição do dia 13 de julho.

– O segundo segredo

A devoção reparadora e a consagração da Rússia aos Corações de Jesus e de Maria foram minuciosamente apresentadas nas páginas anteriores. Lúcia mencionou bastante a luz divina que ela havia recebido para compreender as visões inefáveis que a ultrapassavam. Como para Mélanie em La Salette, tratava-se de uma visão “em Deus”.

“No dia 13 de junho de 1917, ela me havia dito que não me abandonaria nunca, que seu Coração Imaculado seria meu refúgio e o caminho que me conduziria a Deus. Foi dizendo essas palavras que ela abriu as mãos e fez penetrar no nosso peito o reflexo da luz que emanava dela. [Esta luz que é o próprio Deus, ela dirá mais tarde.] Parece-me que, neste dia, esse reflexo teve por fim de introduzir em nós um conhecimento e um amor especial […] a respeito de Deus e do mistério da Santíssima Trindade” (Documentos, p. 219).

Essas palavras são reveladoras. Lúcia vê tudo na própria Trindade, mais precisamente em Cristo, Verbo encarnado, e sua Mãe, sob a influência do Coração. Ela compreendeu tudo isto: o céu e o inferno, a terra e seus dramas nesta luz divina que tomou e transformou sua vida. Tal foi também a experiência de Alfonso Ratisbonne (20 de janeiro de 1842) e de vários outros místicos. Ela explica por que demorou tanto para revelar a aparição de 13 de julho de 1917. Esse foi de início um segredo da Virgem, reforçado pelas ordens estritas de discrição e de silêncio prodigalizadas pelas autoridades: “Excelência, isso poderia levar alguém a pensar que eu deveria ter manifestado todas essas coisas muito tempo atrás, porque assim, há alguns anos somente, elas teriam bem mais valor [em termos de frutos espirituais]. Tal teria sido o caso se Deus quisesse me apresentar ao mundo como profetiza. Mas creio que não foi essa a intenção de Deus quando me manifestou todas essas coisas. Se fosse o caso, penso que, em lugar de ordenar que me calasse em 1917, ordem que foi confirmada por aqueles que o representam, Ele teria me ordenado que falasse. Considero então, Excelência, que Deus quis somente se servir de mim para lembrar ao mundo a necessidade de evitar o pecado e de fazer reparação a Deus ofendido, por meio da oração e da penitência […]. O silêncio foi para mim uma grande graça. O que teria acontecido se eu tivesse que falar do inferno? Impedida de encontrar as palavras exatas para exprimir essa realidade (pois o que eu digo não é nada e não dão a menor ideia do que se trata), eu teria dito ora uma coisa, ora outra, para fazer-me compreender, mas sem nunca consegui-lo. Assim, eu talvez teria provocado uma tal confusão de ideias […] que a obra de Deus […] quem sabe?, teria sido comprometida” (C. Jean-Nesmy, Lúcia, p. 112). Essas confidências são reveladoras para compreender o sentido e a dimensão vivida da mensagem.

– O terceiro segredo

a) Anúncio e alusões antecipadoras

Lúcia menciona a terceira parte do segredo na quarta memória, de 31 de agosto de 1941, como uma extensão do segundo segredo. No entanto, ela não a transcreve, substituindo-a por um “etc.” da seguinte maneira:

“O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé, etc. … Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo.”

b) As hipóteses

As duas frases que acompanham o “etc.” apresentam um contexto que quase não deixa espaço para hipóteses escatológicas, sensacionalistas, lançadas pela agência de imprensa Neues Europa, creditando-as a uma pretensa confidência de João Paulo II durante uma viagem à Alemanha; ademais, a primeira frase (interrompida) do segredo: “Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé”, sugere duas hipóteses:

1) Portugal é o único país mencionado.

2) Outras nações não conservarão o dogma da fé. A contrarreforma anticonciliar deduziu que o terceiro segredo advertia sobre o Vaticano II e suas consequências.

Quando Lúcia fez saber que a Virgem autorizava a revelação a partir de 1960, os tradicionalistas concluíram: se João XXIII enterrou o segredo neste ano, pode-se concluir que o segredo advertia sobre o concílio e suas tristes sequelas: “profecia de desgraça que não estava de acordo com as suas esperanças”. O texto do segredo que será lido mais adiante é fatal para essas induções.

c) Etapas da revelação

Eis as etapas da revelação progressiva.

Em 1941, Lúcia dá uma primeira pista quando fala dos sofrimentos e das perseguições do papa, na terceira memória:

“Eu vi o Santo Padre numa casa muito grande, de joelhos diante de uma mesa, com as mãos no rosto, a chorar. Fora de casa estava muita gente, e uns atiravam-lhe pedras, outros rogavam-lhe pragas, e diziam-lhe muitas palavras feias. Coitadinho do Santo Padre! Temos que pedir muito por ele!

Já disse como um dia dois sacerdotes nos recomendaram a oração pelo Santo Padre, e nos explicaram quem era o Papa. A Jacinta depois perguntou-me:

– É o mesmo que eu vi a chorar, e de quem aquela Senhora nos falou no segredo?!”

O mesmo na quarta memória, a 8 de dezembro de 1941:

“Deus […] vai punir o mundo pelos seus crimes por meio da guerra, da fome e das perseguições contra a Igreja e o Santo Padre”.

Ela emprega a palavra “perseguições”: esta palavra, que não está presente na terceira memória, é a chave de interpretação segundo o cardeal Ratzinger.

d) Redação e transmissão

No início de 1944, Dom Da Silva pede a Lúcia que redija o terceiro segredo. No dia 9 de janeiro de 1944 ela lhe avisa que a redação está pronta.

No dia 17 de junho de 1944, um envelope lacrado é entregue a Dom Da Silva, que não o abre e depois propõe ao Santo Ofício que o devolva, mas a resposta é negativa. Lúcia então começa a dizer que o segredo poderá ser revelado ao mundo a partir de 1960:

“- A Virgem o quer assim, ela dizia.

– Por quê? perguntavam-lhe.

– Porque assim tudo ficará mais claro.”

Em maio de 1955, Lúcia se encontra com o cardeal Ottavianni para conversarem sobre terceiro segredo.

No fim de 1956 – início de 1957, o Santo Ofício pede cópias de todos os escritos, incluso o do terceiro segredo.

No dia 8 de março de 1957, Dom Vênancio entrega a Dom Centos, núncio de Lisboa, o duplo envelope lacrado com outros documentos. (Segundo Robert Serrou, do Paris Match, na época o segredo se encontrava nos aposentos de Pio XII: ele afirmou que obtivera a informação da irmã Pascualina).

Em agosto de 1959, João XXIII, então em Castel Gandolfo, manda que lhe tragam o segredo, o removedor de lacres, e depois que o traduzam para que seja lido em privado pelas pessoas mais próximas, notadamente o seu confessor, Dom Cavagna, Dom Tavares, português e futuro bispo de Macao, e Dom Capovilla, bem como os cardeais Agagianian e Tardini. Em seguida manda que o lacrem novamente. Em fevereiro de 1960, ele o abre oficialmente diante do cardeal Ottaviani, secretário responsável do Santo Ofício, que testemunha: o papa “colocou ele mesmo o segredo em um envelope, o lacrou e o depositou em um de seus arquivos, que são como um poço profundo, negro, negro, no fundo do qual os papeis caem e ninguém vê mais nada”.

Diversas falsas revelações ou interpretações circulam nos anos seguintes (análise de R. Laurentin em Chrétiens Magazine, nº 132, p. 13).

No dia 13 de maio de 2000, João Paulo II, em peregrinação a Fátima, preside a primeira divulgação pública do segredo, durante a missa solene, diante de um milhão de fiéis. O discurso é proferido pelo cardeal Sodano, que o papa encarrega de anunciar a publicação próxima da terceira parte do segredo pelo cardeal Ratzinger e seu secretário, Dom Bertone. A publicação acontece no dia 26 de junho de 2000.

e) O texto

Eis o texto:

“J.M.J.

A terceira parte do segredo revelado a 13 de julho de 1917 na Cova da Iria – Fátima.

Escrevo em acto de obediência a Vós Deus meu, que mo mandais por meio de sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria e da Vossa e minha Santíssima Mãe.

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n’uma luz emensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n’um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”, vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n’êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproximavam de Deus.

Tuy-3-1-1944”

A revelação do segredo, tão esperada, teve pouco eco na imprensa. A notícia foi honrada respeitosa e brevemente, mas sem grande repercussão. 

f) A autenticidade

Os grupos apaixonados, para os quais a consagração da Rússia ainda não tinha sido feita de acordo com o pedido da Virgem e o terceiro segredo prevenia contra Concílio Vaticano II, não encontrando a confirmação de sua hipótese, denunciaram a edição oficial como truncada e inautêntica.           

Eis os seus argumentos: o terceiro segredo não se encaixa nas primeiras palavras reveladas por Lúcia na quarta memória: “Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé”; o que deixava entender, como de fato aconteceu, que outras nações o perderiam em seguida ao Concílio Vaticano II.           

É totalmente inverossímil que o cardeal Ratzinger e Dom Bertone, homens da Igreja e universitários do mais alto nível, tenham traído e amputado o segredo. A sua consciência profissional de universitários experientes, o conjunto de suas qualidades intelectuais e morais, bem como a responsabilidade que lhes foi confiada sob o controle do papa, são suficientes para eliminar essa suspeita absurda1.           

A ausência de encadeamento se explica simplesmente pelo fato de que Lúcia interrompeu a redação da quarta memória, conforme a ordem da Virgem para que deixasse para mais tarde a publicação da terceira parte do segredo. Quando Dom Da Silva a convidou a redigi-la, no início de janeiro de 1944 (mais de dois anos após a quarta memória e vinte e sete anos após a aparição de 1917), ela recomeçou novamente, com preâmbulo, sem qualquer pretensão de encadeamento com a redação precedente. É portanto mais factível que a mensagem de 1917 não seja um ditado, mas o resumo em traços gerais de uma imensa visão indizível que a ultrapassava e que ela teve a coragem de traduzir fielmente em termos claros e breves.

g) A interpretação           

A interpretação não é fácil. João Paulo II reconheceu seu atentado no segredo, mas a descrição não é literal: todos os detalhes são materialmente inexatos. O “Bispo vestido de branco”, que Lúcia pressente ser “o Santo Padre”, atravessa uma cidade em ruínas: no momento do atentado de 13 de maio de 1981, João Paulo II circulava pela suntuosa cidade do Vaticano. O segredo situa o atentado sobre uma montanha, mas o papa circulava sobre a praça de São Pedro. Nada de “grande Cruz de troncos toscos”. O papa não estava “trémulo”, mas na plenitude de suas forças. Ele não caminhava “com andar vacilante”, etc. Estava de pé, sendo aclamado dentro do papamóvel. Não havia subido nem se prostrado no “cimo do monte”. Ele não foi “morto”; foi apenas gravemente ferido. Não se tratou de tiros de “um grupo de soldados”, mas de um único civil, assassino contratado. Nada de “flechas”, nada de “outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas” mortos junto com ele. Não se viu nem “Cruz”, nem “dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão”, a recolherem “o sangue dos Martires”. João Paulo II foi a única vítima na praça de São Pedro.           

Essas inexatidões materiais contrastam com a precisão (aliás única na história da Igreja) das predições de Yvonne Beauvais (ver Malestroit, Biografia, F.-X. Guibert, Paris, 2002). O cardeal Ratzinger, que o papa encarregou de interpretar o segredo, editado e apresentado historicamente por Dom Bertone, resolveu o desafio: a profecia não é literal, mas simbólica. Ela significa, em termos metafóricos, a provação de toda a Igreja que João Paulo II viveu desde a sua juventude, e depois no cimo da Igreja, à frente do combate espiritual. Sua vida foi um combate constante contra a ditadura ateia, notadamente pela edificação da admirável igreja de Nova Huta, na cidade operária que o regime comunista edificava como um oásis secular, livre de religião. A Polônia de Wyszynski foi um fator determinante para a queda do comunismo, pois ela desmentia ponto a ponto a doutrina presumidamente “científica” do comunismo.           

O marxismo seria o “libertador dos proletários”, mas o primeiro sindicato livre que Lech Walesa criou na Polônia foi dissolvido e Walesa, preso: nova prova da falência da “ciência” marxista, diante da iniciativa de um operário cristão assíduo à missa diária, portando o rosário no pescoço. (R. Laurentin, Os cristãos detonadores das libertações do Leste, Paris, 1991).           

Quanto à principal inexatidão do segredo: João Paulo II não foi morto no dia 13 de maio de 1981. Ele teve a evidência de ter sido salvo miraculosamente pela intercessão da Virgem, a quem se confiou totalmente desde a sua juventude: Totus Tuus. É o que ele compreende lendo a predição no leito do hospital, em maio de 1981.           

Segundo a imprensa italiana, a predição se adequava melhor ao assassinato de Dom Romero, “bispo de branco”, assassinado por um soldado mobilizado. Porém, desde janeiro de 1944, Lúcia pressentia que se tratava do “Santo Padre”, e assim o designaria novamente mais tarde.           

O cardeal Ratzinger trouxe a chave do problema: não se trata de uma profecia literal, mas simbólica, metafórica, isto é, transposta metaforicamente sem o detalhamento da interpretação. Trata-se de uma visão global dos martírios de todo o século XX (1917-1989), inclusive o do papa, visado por uma “fileira do Leste” que a diplomacia evitou identificar com precisão, não obstante os indícios de uma pista búlgara.           

Fátima e seus segredos foram discutidos e criticados, a começar pelos teólogos: o que acontece normalmente a todas as profecias que se endereçam a um mundo desviado do reto caminho. A predição de Fátima ilustra aquela de Cristo a seus discípulos: “Vós sereis perseguidos por causa do meu nome” (Mt 5,11-22; 24,9; Lc 21,12; Jn 15,20).

h) Visão de conjunto           

O triplo segredo profético se opõe a um mundo sedutor, mas que reduz e deprecia a fé, pautado em valores exclusivamente humanos.

1. O primeiro segredo recorda o destino do homem, chamado à plenitude do Amor, que é Deus. Aquele que recusa o Amor se entrega ao fogo dos desvios do Amor, que queimam e destroem: o inferno, cuja visão manifesta o horror.

2. O segundo segredo convida à reparação dos pecados pelo sacrifício e à consagração total a Deus por amor, para que haja um engajamento total com Ele no serviço em favor dos homens (Mt 25). Essa foi a própria vida dos videntes, o que refletiu no numeroso povo cristão, herdeiro dos “pobres de Javé”, conforme a Bíblia, num momento em que tantos intelectuais, desconhecendo os gulags, se aliavam à revolução marxista como a única expressão e o único abrigo do cristianismo que havia traído os pobres.           

O “fim das perseguições” e a “conversão da Rússia”, anunciadas pelo segundo segredo, suscitavam o ceticismo dos sábios. O poder policial, militar e científico da ditadura marxista, país que dominava os conhecimentos técnicos sobre a bomba atômica e a astronáutica, dava-lhe a aparência de senhor do futuro, graças ao exército, à polícia e à propaganda mais notáveis da época. A ilusão dos diversos teólogos da libertação (franceses e sul-americanos) era a de que a revolução violenta, a ditadura do proletariado e a ciência marxista constituíam a única via para que se estabelecesse a justiça e a comunhão universal segundo o Evangelho. Quantas vezes eu mesmo fui provocado neste sentido, àquela época!

3. A terceira parte do segredo, mais metafórica, celebra o martírio de milhões de cristãos, tão estranhamente ignorado.           

O segredo de Fátima manifestou uma questão sem precedentes: o conflito dos últimos papas entre magistério e profetismo. E foi o rigor canônico do magistério que se manifestou diversamente entre eles.           

Pio XI recusou-se a pronunciar a consagração pedida por uma vidente para que não subordinasse sua autoridade infalível a uma revelação privada (logo incerta).           

Pio XII, nas graves circunstâncias da guerra, realizou por quatro vezes a consagração pedida, sendo que todas as renovações foram julgadas como insuficientes pela vidente.           

João XXIII enterrou conscientemente o terceiro segredo, cuja revelação Lúcia desejava que acontecesse em 1960.           

Paulo VI recusou a centenas de bispos que se refizesse a consagração no concílio ecumênico do Vaticano II, em nome do magistério supremo, e sustentou-se em uma dupla compensação marginal: no dia 21 de novembro de 1964, promulgando o texto maior do concílio sobre a Igreja, ele “mencionou” a consagração de Pio XII no seu discurso (sem renová-la, o que poderia dar a impressão de que a consagração anterior havia expirado) e anunciou o retorno da rosa de ouro a Fátima.           

João Paulo II renovou por três vezes, solenemente, e muitas vezes em privado, a consagração pedida por Lúcia, que a julgava sempre insuficiente. Ela a aceitou dois anos mais tarde, quando os primeiros sintomas da perestroika demonstraram que alguma coisa mudava na Rússia.

No plano profético, Pio XII e João Paulo II tomaram as iniciativas para introduzir a Igreja no profetismo das aparições de Fátima. No dia 13 de outubro de 1951, Pio XII pediu privadamente a seu legado, o cardeal Tedeschini, seu representante em Fátima, que revelasse que ele havia visto por quatro vezes, à época da definição da Assunção no dia 1º de novembro, o “milagre do sol” (como o do dia 13 de outubro em Fátima) nos jardins do Vaticano. O Santo Ofício reagiu imediatamente e interpelou o legado pela sequência dessa revelação, e a sequência permaneceu no segredo. O Santo Ofício da época, secretariado oficial e por vezes quase autônomo ao papa, retomava assim a tradição de rigor seguida até então pelo soberano pontífice. Mas o papa havia tomado a decisão de não revelar ele mesmo a sua experiência pessoal.           

João Paulo II, que havia reconhecido seu atentado no terceiro segredo de Fátima, tomou a decisão sem precedentes de revelá-lo oficialmente, em sua presença, por seus representantes supremos: o secretário de Estado que o revelou durante a missa solene presidida pelo papa; o cardeal Ratzinger, que era, segundo a tradição, seu secretário pela fé, encarregado de redigir uma explicação doutrinal; e seu assessor, o futuro cardeal Bertone, que foi pessoalmente encarregado da edição crítica do segredo. Mas João Paulo II tomou a decisão de não revelar ele mesmo o segredo, de não falar sobre ele, até mesmo no Angelus, como se havia anunciado que ele faria um dia.           

Fátima foi, para os papas e para a Igreja, uma interpelação profética que fez sair dois deles de sua reserva tradicional, mas somente no plano profético, e não no plano do magistério. Isso reflete uma dupla continuação do apóstolo Pedro, a quem Cristo confiou o magistério supremo, gerado rigorosamente no concílio de Jerusalém, conciliando-se as opiniões adversas. Mas a grande decisão deste concílio, a de abrir a Igreja aos pagãos sem sujeitá-los às prescrições da Lei antiga (circuncisão e prescrições alimentares, ou as outras 613 prescrições), tinha sua origem na visão profética que Pedro tivera em Jope de animais impuros que lhe foram apresentados no céu, com esta ordem do Senhor: “Tomai e comei”. Ele então entendeu que as prescrições particulares estavam abolidas pela vinda do Cristo e pela renovação da Aliança.

Infelizmente, Nossa Senhora revelou nas aparições de Belo Horizonte que a cúpula da Igreja de fato suprimiu uma parte do Terceiro Segredo, aquela que mencionava o iminente retorno de Jesus.

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IV- Conclusão           

É normal que Fátima tenha sido discutida, como todas as profecias, como todas as aparições, verdadeiras ou supostas, pois mesmo as aparições reconhecidas continuam estatutariamente conjeturais e não são impostas, mas propostas à liberdade cristã, segundo o firme ensinamento da Igreja, confirmado por Pio X.           

O mais impressionante, o mais surpreendente nas aparições de Fátima foi a predição da queda do comunismo, robusto no seu sistema militar, policial e midiático sem igual, que havia fascinado numerosos cristãos até mesmo no nível hierárquico, “até seduzir os próprios eleitos”, como Jesus diz em Mt 24.           

Essa predição me parecia inverossímil, haja vista a solidez bem assentada do regime comunista; a sua realização, na transição dos anos 1980-1990, sob Gorbatchev, me convenceu.¹ O mais importante na mensagem é o convite insistente à oração, à penitência, isto é, à conversão e ao sacrifício, o que se enquadra na linha do Evangelho e de outras numerosas aparições. É o ponto comum das grandes aparições da época moderna, que fazem referência aos Corações de Jesus e de Maria, com um forte acento profético sobre o Coração Imaculado.

¹ Em março de 1992, portanto após a queda da URSS, Nossa Senhora afirmou: “O comunismo ainda não acabou; o demônio continua em vigília permanente. A Rússia, a qual pedi que fosse consagrada a mim, ainda não está convertida”. O comunismo, portanto, não acabou. E pelo contrário, aprimorou-se de tal modo que hoje atua livre em uma invisibilidade que o torna sempre mais eficaz. O engodo demoníaco tornou-se mais sutil. Primeiro sustentava-se que a revolução deveria começar pela tomada do Estado, para depois transformar a sociedade. Em seguida essa ordem foi invertida: a revolução deveria começar pela transformação da sociedade, para depois atacar o Estado. A investida deveria começar pela “revolução do espírito”, sem a qual a tomada do Estado não poderia perdurar. Com essa estratégia, o comunismo foi bem sucedido em universalizar uma confusão mental e espiritual sem limites, fomentando e patrocinando todos os instrumentos possíveis para criar o caos: cultura da contestação e da desobediência, relativismo moral, marxismo e modernismos em todos os ramos da arte e das ciências humanas, inclusive na teologia, dessacralização, materialismos de toda espécie, direitos exclusivistas, fragmentação da sociedade em grupos antagônicos, pseudo-religiões, e mais um número incontável de ramos de atuação. “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo”, profetizou Nossa Senhora em Fátima. O homem moderno, educado na soberba e na mentalidade revolucionária, vive em tamanha confusão mental e espiritual que já não é capaz de distinguir o bem do mal. Ele se tornou uma presa dócil de Satanás. Até mesmo pessoas com as melhores intenções cometem blasfêmias incalculáveis convictas de que praticam a suma virtude. “Vocês perderam a noção do pecado”, disse Maria. E agora, com a humanidade completamente confusa e fragilizada, o comunismo continua a articular-se política e militarmente junto a outros grupos de poder que desejam destruir o ocidente cristão. 

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