Cardeal Burke: “Nunca serei parte de um cisma, mesmo que seja castigado por ensinar e defender a fé católica”

Infocatólica, 24 de janeiro de 2018.

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Tradução. Bruno Braga.

O Cardeal Raymond Leo Burke concedeu uma entrevista a Chris Altieri para o Thinking with the Church. O Catholic World Report transcreveu boa parte dela. O purpurado aborda a situação atual da Igreja e nega ter a intenção de liderar um cisma.

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(Catholic World Report / Infocatólica). Na entrevista, o Cardeal Burke aborda a situação atual da Igreja:

A situação continua sendo motivo de grande preocupação, porque há uma confusão que está crescendo – digamos, quase de forma exponencial na Igreja – com relação às verdades fundamentais, especialmente a verdade sobre o Sacramento do Matrimônio e a verdade sobre a Sagrada Eucaristia e a digna recepção Dela.

Escuto isso com frequência. Recebi recentemente uma correspondência de um homem que não conhecia e que estava vivendo em uma união matrimonial irregular, e a quem um sacerdote confessou que os padres agora receberam do Papa Francisco a faculdade de declarar nulo um matrimônio no Sacramento da Confissão e, portanto, era permitido ao homem em questão receber os Sacramentos. O homem me escreveu, dizendo que inicialmente estava muito contente com o que dizia o sacerdote, mas que a cada vez que recebia a Sagrada Comunhão, sua consciência não lhe dava descanso. Então, perguntou-me se é certo que agora os sacerdotes têm a faculdade de declarar nulo um matrimônio no Sacramento da Confissão, que sua consciência o estava atormentando, e se ele deveria seguir a sua consciência. Sugeri a ele que procurasse um sacerdote bom e sábio para ajudá-lo a abordar a situação.

Este não é um caso isolado. Sei muito bem que este e outros tipos de prática continuam, que atacam a Igreja em seu próprio fundamento, a saber, a família: a Igreja doméstica, o primeiro lugar no qual a Igreja adquire vida. Tem que ser uma fonte de profunda preocupação para todos nós restabelecer o correto entendimento do matrimônio como uma graça outorgada aos que o contraem para viver o amor fiel, indissolúvel e procriador. Portanto, continua sendo tão crítico como sempre responder às sérias dúvidas que a Amoris Laetitia criou na cabeça das pessoas, no sentido esclarecer o ensinamento e a prática constantes da Igreja que, na verdade, não podem mudar, e não vão mudar, de modo que as pessoas possam estabelecer as suas vidas sobre a base firme da vida de Cristo em nós, a vida de Cristo conosco na Igreja. Dessa forma, a vida familiar será fortalecida, e será fortalecida a vida da sociedade em conjunto.

Portanto, o problema ficou mais grave, e é mais urgente que todos o abordemos da forma mais efetiva possível.

– Como chegamos até aqui? Quero dizer: uma Exortação pós-sinodal é uma Exortação pós-sinodal. Não é em si um documento magisterial. Um Papa pode utilizá-la para ensinar algo, mas o Papa nos disse, no documento, que não está ensinando nada novo, e nós acreditamos nele. Tampouco não é nenhum tipo de instrumento de governo. Não modifica a lei e nem pretende fazê-lo. Então, de onde vem a confusão?

A confusão tem suas raízes em uma oposição de longa duração contra os ensinamentos de Cristo sobre o Matrimônio, e contra os ensinamentos da Igreja sobre a santidade da Sagrada Eucaristia.

Sempre existiu um certo setor que se rebelou contra os ensinamentos da Igreja e, nos últimos tempos, nós o temos visto de forma muito evidente: por exemplo, em todo o debate dos anos 1960 sobre a contracepção artificial; mas também na questão das uniões matrimoniais irregulares, a coabitação fora do matrimônio; é tudo um efeito, realmente, da sociedade secular, na qual tem havido em nosso tempo um implacável ataque à santidade do Matrimônio. Agora o vemos em uma manifestação perfeitamente horrível na chamada ideologia de gênero. Portanto, não deveríamos ficar surpresos que esses temas voltem a ser considerados, ainda que tenham sido considerados no Sínodo sobre a Família anterior, de 1980, após o qual o Papa São João Paulo II respondeu tão bem, mostrando que a Exortação Apostólica pós-sinodal não deve incluir ensinamentos novos, mas expor o que a Igreja sempre ensinou e praticou com o objetivo de fortalecer a vida da Igreja e, portanto, abordar as necessidades mais importantes da sociedade. São João Paulo II nos deu este tipo de documento com a Familiaris consortio.

A única coisa que podemos fazer em termos de Amoris Laetitia é lê-la na perspectiva do ensinamento e da prática constantes da Igreja. E isso significa que não pode haver o que alguns chamaram de uma revolução na Igreja Católica: a Igreja agora aceita que as pessoas divorciadas e cujos matrimônios não foram declarados nulos possam entrar em um suposto “segundo matrimônio”. Revolução também nos termos do ensinamento constante da Igreja, de que o ato conjugal tem lugar corretamente apenas dentro do matrimônio, em outras palavras, que a coabitação fora do matrimônio é sempre e em todos os casos um ato mau. Essa é a única forma em que podemos interpretar o documento. Somos católicos romanos. Cristo está vivo para nós no ensinamento constante da Igreja, e nunca devemos nos distanciar Dele, da forma como nos ensina e nos conduz na Igreja.

– É possível sugerir, pressupondo a leitura da Amoris Laetitia conforme o ensinamento constante da Igreja, base da nossa compreensão do documento, que a Familiaris consortio pôs uma espécie de “selo petrino” no que já era uma prática pastoral bastante difusa, que era – escândalo remoto – admitir aos Sacramentos da Reconciliação e da Sagrada Comunhão pessoas que estavam em situações irregulares, na medida em que se comprometessem a viver em castidade. No que se diferencia a Amoris Laetitia para provocar preocupação e confusão? Ou não é necessariamente um problema com a Amoris Laetitia, mas com a sua implementação?

Bom, por um lado, é um problema interpretativo. Por outro, certamente é um problema de aplicação.

A dificuldade interpretativa é que o documento parece sugerir que existem casos além daquele que acaba de mencionar, e que é o único caso possível em que duas pessoas que vivem juntas, no que parece ser uma união matrimonial, poderiam receber os Sacramentos. Quer dizer, vivem juntas, porque, por alguma razão, não podem se separar, mas não vivem como marido e mulher, e sim como “irmão e irmã”, mantendo a castidade. Então estamos diante de um problema interpretativo, e isto precisa ser esclarecido. Por enquanto, pelo menos em alguns dos que afirmam interpretar corretamente a Amoris Laetitia, haveria outros casos. Suponho que tenha sido apresentado de uma forma que pode ser útil para entender este problema de interpretação quando, durante a primeira sessão do recente Sínodo dos Bispos sobre a família, do qual eu participei, um proeminente Cardeal disse que o matrimônio é um ideal, e que não podemos exigir das pessoas o ideal. A verdade é que o matrimônio não é um ideal. É uma realidade. É um presente da graça divina viver no amor da Santíssima Trindade em um fiel e indissolúvel amor vivificante, e aqueles que entram no matrimônio, aqueles que conferem o Sacramento aos seus pares, são chamados a viver em fidelidade a essa graça, inclusive em um grau heroico.

De fato, durante os meus anos de vida sacerdotal e como Bispo, e mais recentemente durante toda esta crise de interpretação após a primeira sessão do Sínodo, conheci vários católicos que estão divorciados e que vivem agora com fidelidade ao seu matrimônio. Quer dizer, não tentaram um segundo matrimônio, por assim dizer, mas agora veem, como dever principal, o chamado a permanecerem fiéis ao matrimônio que contraíram e a rezar pela salvação do cônjuge que os deixou ou que eles mesmos deixaram. O Sacramento do Matrimônio existe antes de tudo para a salvação dos cônjuges e, assim, quando se recebe o dito sacramento, o maior dever é orar e trabalhar para a salvação do cônjuge.

Esta é uma verdadeira dificuldade com relação à interpretação do texto, mas as aplicações são também problemáticas, e temos propostas, como as apresentadas pelos Bispos de Malta, que são simplesmente contrárias ao que a Igreja sempre ensinou e praticou. Isso não pode ser certo. Digo reiteradamente que precisamos invocar com frequência o princípio fundamental da lógica:  o princípio da não contradição; o de que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo. Não podemos esperar que o matrimônio seja indissolúvel e, ao mesmo tempo, permitir que alguém estabeleça uma segunda união. Isso é uma contradição.

– Existem pessoas que têm sido ouvidas e que encontraram a maneira de expressar publicamente as suas opiniões sobre esta questão, que vêm tentando, em todo caso, que o Santo Padre seja um participante voluntário ou involuntário nisto. Gostaria que falasse a respeito.

Para mim, a chave sempre é o ensinamento constante da Igreja. Para responder à sua pergunta, devo fazer primeiro uma observação preliminar. O que me assusta muito acerca da situação atual da Igreja é o que eu chamaria uma politização da vida da Igreja e de sua doutrina. É fácil fazer isso pelos meios seculares, mas está sendo ajudado e instigado na atualidade por certos líderes e teólogos da Igreja e outros comentaristas. Não se trata de estar a favor da “revolução de Francisco”, como é conhecida popularmente. Não se trata de ser “pró” Papa Francisco ou “contra” Papa Francisco. Trata-se de defender a fé católica, e isso significa defender o Ofício de Pedro para que o Papa o exerça bem. E, assim, defender o que a Igreja constantemente tem ensinado e praticado nunca pode ser visto como uma espécie de ação política contra o “outro” movimento político, como é chamada a “Revolução” na Igreja, e nunca pode ser visto como contrário ao ofício papal.

Na verdade, o maior serviço que qualquer um de nós pode prestar ao Santo Padre é dizer a verdade da fé, e isso o ajuda a ser o que o Concílio Vaticano II chama acertadamente de princípio da unidade de todos os Bispos e da Igreja mesma.

Simplesmente não há outra maneira de vê-lo, e me parece, em primeiro lugar, ridículo, mas, em segundo lugar, muito prejudicial que as pessoas que simplesmente apresentam os ensinamentos da Igreja da melhor forma que conseguem sejam acusadas de estar contra o Santo Padre ou que sejam acusadas de ser causa de divisão na Igreja, inclusive ao ponto de serem acusadas de dirigir um movimento cismático na Igreja. Essas são técnicas utilizadas para avançar certas agendas, e não devemos nos deixar desanimar por elas ou silenciar. Pelo contrário, devemos ser exortados, inclusive Nosso Senhor mesmo nos exorta a falar sobre a verdade e dar testemunho dela em nossas vidas diárias.

– Eminência, apenas para deixar as coisas claras neste ponto: existem pessoas que sugeriram que o senhor é um dissidente, vozes que sugeriram sua inclinação a tendências cismáticas, inclusive a um cisma aberto. Ninguém em uma posição de responsabilidade na Igreja sugeriu, mas sei que se está desafiando a fé das pessoas. Então, gostaria de dar-lhe a oportunidade de abordar isso.

Sim, é uma fonte de angústia para mim escutar isto, que as pessoas sugiram que eu lideraria um cisma. O que também é uma fonte de angústia para mim é ver os bons católicos, e em particular os convertidos à fé católica, cuja fé está sendo tremendamente provada por causa da atual situação da Igreja, e que inclusive experimentam tentações de buscar Cristo fora do Catolicismo, da Igreja, no sentido de que estão tentados a pensar que a Igreja mesma abandonou a Fé Apostólica. Podemos entender por que esta é uma grande dificuldade para os convertidos, que vieram à Igreja Católica porque ela, ao longo dos séculos – apesar de muitas provas e tribulações dentro da própria Igreja – permaneceu fiel à Tradição Apostólica com a ajuda da graça divina.

Respondendo diretamente à pergunta, como disse no passado: nunca serei parte de nenhum cisma, mesmo que seja castigado dentro da Igreja pelo que estou tratando de fazer com boa consciência, por ensinar e defender a fé católica. É o que estou obrigado a fazer, antes de tudo como cristão, porém, mais até como Bispo e Cardeal da Igreja. Nunca abandonarei a Igreja Católica, porque é a Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, que estabeleceu Pedro como Chefe do Colégio Apostólico, como o princípio da unidade da Igreja em todo o mundo. E, uma vez que já não temos fé na presença permanente de Nosso Senhor na Igreja, também através do ofício petrino, deixamos de ser católicos e entramos neste mundo de divisões intermináveis entre os cristãos.

Portanto, simplesmente instaria meus companheiros católicos, eu mesmo tento fazê-lo, a responder à situação mediante a fidelidade ao que a Igreja sempre ensinou e praticou, e isso não é um mistério para nós – está contido no Catecismo da Igreja Católica, por exemplo. Permanecendo fiéis dessa maneira, também continuaremos sendo um com Pedro; porque um Papa não ensina de forma diferente de outro Papa. Todos os Papas são sucessores de São Pedro. São guardiões e promotores da Tradição Apostólica e, portanto, se permanecermos fiéis ao que a Igreja sempre ensinou e praticou, também continuaremos fiéis a São Pedro: Ubi Petrus, ibi Ecclesia [“Onde está Pedro ai está a Igreja”]. É uma situação difícil, mas, em certo sentido, é bastante simples: somos católicos romanos; sabemos o que é a fé católica e devemos nos associar a ela, defendê-la, inclusive se isso pressupõe, como para muitos dos nossos antepassados, o martírio ou uma espécie de “martírio branco”, de ridículo, de sermos acusados de inimigos da Igreja.

Seja qual for a implicação para nós, no final, a única coisa que realmente importa é que permaneçamos fiéis a Cristo e ao que Ele nos ensinou na Igreja.

– Para concluir a nossa conversa: há uma narrativa de oposição que sem dúvida vende muito: os que propõem essa narrativa às vezes se colocam ao lado dos signatários dos dubia, na cabeça desse “movimento de resistência”. Suponho que seria uma boa história, se estivéssemos fazendo um filme para Hollywood. Corresponde à realidade?

Não. Asseguro a você que isto não digo em elogio a mim nem aos outros três Cardeais, dois dos quais Nosso Senhor chamou à Sua presença: o Cardeal Meisner e o Cardeal Caffarra. Nunca tivemos outro objetivo em mente que não sermos autênticos mestres da fé. Estávamos cumprindo, – e continuamos cumprindo, eu e o Cardeal Brandmüller – a nossa principal responsabilidade como Bispos e Cardeais: ensinar a fé. Não estamos liderando nenhum tipo de movimento. Nunca tentamos formar nenhum tipo de movimento. Simplesmente fizemos o nosso melhor esforço para defender Cristo e o seu ensinamento na Igreja.

Sigo muito inspirado pelo Cardeal Caffarra e pelo Cardeal Meisner. Estou em contato constante com o Cardeal Brandmüller, e posso assegurar-lhes que é tudo. O mundo secular quer interpretar o que temos feito com todo tipo de raciocínio mundano, etc. Posso assegurar-lhes que, mediante a oração e o sacrifício, temos tentado nos purificar de qualquer coisa que não seja o amor devoto a Cristo e à Sua Igreja.