Alerta máximo na Igreja. Mas Francisco deixa que ele soe no vazio.

Sandro Magister.

11 de maio de 2018.

[http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2018/05/11/alarma-maxima-en-la-iglesia-pero-francisco-deja-que-suene-en-vacio/].

Tradução. Bruno Braga.

 

Atenção. A julgar pelas advertências que nos últimos dias alguns Cardeais dirigiram ao Papa, o confronto que foi instalado na Alemanha a favor ou contra a comunhão de cônjuges protestantes deve ter ultrapassado o nível do perigo para a unidade de toda a Igreja. Advertências de uma severidade sem precedentes nos cinco anos de pontificado de Francisco (na foto, no set de Wim Wenders).

Os antecedentes podem ser lidos neste “post” do Settimo Cielo de 02 de maio, vigília do confronto entre as partes contrárias, convocadas pelo Papa a Roma: “Um Cardeal, sete Bispos e quatro novos ‘dubia’. Desta vez sobre a intercomunhão [1].

O encontro entre os Cardeais e Bispos alemães e as autoridades vaticanas aconteceu no dia 03 de maio, na sede da Congregação para a Doutrina da Fé, e foi concluído sem que se tomasse nenhuma decisão. À noite, um breve comunicado informou apenas que “o Papa Francisco aprecia o esforço ecumênico dos Bispos alemães e pede a eles que encontrem, no espírito de comunhão eclesial, um resultado possivelmente unânime” [2].

E foi exatamente esse pedido do Papa aos Bispos alemães, para continuarem o debate e concluí-lo com uma votação, o que fez com que alguns Cardeais de primeiríssimo nível reagissem, convencidíssimos de que as questões de fé não podem ser resolvidas com votações e sem o envolvimento da Igreja universal.

*

O primeiro deles é o Cardeal Willem Jacobus Eijk, arcebispo de Utrecht.

“A resposta do Santo Padre é totalmente incompreensível”, escreveu sem rodeios em uma nota publicada no National Catholic Register, nos Estados Unidos [3], no La Nuova Bussola Quotidiana, Itália [4], e no Infovaticana, Espanha [5].

E explicou:

“O Santo Padre agora informou à delegação da Conferência Episcopal Alemã de que deve discutir novamente a proposta para elaborar um documento pastoral dedicado, entre outras coisas, à recepção da Comunhão, e tratar de conseguir a unanimidade. Unanimidade sobre o quê? A prática da Igreja Católica está baseada na sua fé, não determinada pelos votos da maioria de uma Conferência Episcopal, ainda que unânimes, e nem muda de forma estatística com esses votos”.

E continua:

“O Santo Padre, deveria ter dado à delegação da Conferência Episcopal Alemã orientações claras, baseadas na clara doutrina e prática da Igreja. Também deveria ter respondido sobre essa base à mulher luterana que lhe perguntou, no dia 15 de novembro de 2015, se poderia receber a Comunhão com o seu esposo católico, dizendo que isso não é aceitável, em vez de sugerir que poderia receber a Comunhão com base no seu batismo e de acordo com a sua consciência. Se não gera claridade, cria-se uma grande confusão entre os fiéis e se põe em perigo a unidade da Igreja”.

Eijk se refere à tortuosa resposta – sim, não, não sei, decidam vocês – que Francisco deu a essa mulher protestante, e que pode ser vista neste vídeo do Centro Televisivo Vaticano: “A questão sobre compartilhar a ceia do Senhor…” [6].

Eis aqui a conclusão dramática a que chega o Cardeal holandês, citando uma inquietante passagem do Catecismo:

“Ao observar que os Bispos e principalmente o Sucessor de Pedro não conseguem manter e transmitir fielmente e na unidade o depósito da fé contido na Sagrada Tradição e na Sagrada Escritura, não posso evitar de pensar no artigo 675 do Catecismo da Igreja Católica: ‘Antes do advento de Cristo, a Igreja deve passar por uma provação final que abalará a fé de muitos crentes. A perseguição que acompanha a peregrinação dela na terra desvendará o ‘mistério da iniquidade’ sob a forma de uma impostura religiosa que há de trazer aos homens uma solução aparente a seus problemas, à custa da apostasia da verdade”.

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Outro Cardeal que reagiu duramente foi Gerhard L. Müller, o anterior prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Comentando o resultado da reunião do dia 03 de maio no National Catholic Register [7], Müller lamentou a falta de uma resposta clara sobre uma questão que é “o pilar de nossa fé, a Eucaristia”. Uma resposta que era justo esperar do Papa, cujo dever é exatamente “confirmar a fé” e “dar uma orientação clara”, não “através de opiniões pessoais, mas de acordo com a fé revelada”.

É inadmissível – continuou Müller – que uma conferência episcopal vote contra uma doutrina que é “elemento fundamental” da Igreja. Não é possível estar “em comunhão sacramental sem estar em comunhão eclesial”, porque se este princípio é destruído, então também “se destrói a Igreja Católica”.

“Devemos nos opor a isso”, afirmou Müller. “Espero que mais Bispos levantem a sua voz e cumpram com o seu dever. Todo Cardeal tem o dever de explicar, defender, promover a fé católica, não segundo os seus sentimentos pessoais ou as correntes da opinião pública, mas lendo o Evangelho, a Bíblia, as Sagradas Escrituras, os Padres da Igreja. Deve conhecer tudo isso, inclusive os Concílios, e deve estudar os grandes teólogos do passado. Deve ser capaz de explicar e defender a fé católica sem utilizar sofismas argumentativos que sejam do agrado de um ou de todos”.

Müller espera que a Congregação para a Doutrina da Fé possa desempenhar a sua tarefa de “guia do magistério do Papa”: tarefa que Francisco sempre evitou, tanto no passado, quando Müller era o prefeito da Congregação, como agora, que é o jesuíta espanhol Luis Ladaria. “É preciso fomentar uma maior claridade e valentia”, concluiu o Cardeal.

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Ademais, o excelente vaticanista Edward Pentin reuniu, novamente no National Catholic Register [8], os comentários de uma fonte próxima aos Bispos alemães que, na reunião vaticana de 03 de maio, representavam os que haviam feito um apelo à Santa Sé contra a concessão da Comunhão aos cônjuges protestantes: Rainer Woelki, Cardeal Arcebispo de Colônia, e Rudolf Voderholzer, Bispo de Ratisbona.

“A resposta oficial é que não houve nenhuma resposta”, lamentou essa fonte, comentando o resultado da reunião de 03 de maio. “A Congregação para a Doutrina da Fé foi reduzida ao papel de carteiro”, isto é, de mero mensageiro da não resposta de Francisco, que, por sua vez, “não cumpriu com a sua obrigação de Papa com relação a um ponto do dogma em que é seu dever decidir” e “confirmar a fé”.

Nos próximos meses – acrescentou a fonte -, em que a discussão continuará na conferência episcopal da Alemanha, como quis o Papa, “nossa tarefa será reforçar” e ampliar o número de Bispos que se oponham à Comunhão dos cônjuges protestantes. “Será uma batalha longa, mas a levaremos a cabo com determinação”.

De facto, se desenha uma “revolução eclesiológica. O verdadeiro problema não é a questão em si mesma, mas a recusa do Papa em cumprir com as suas obrigações de sucessor de Pedro, algo que pode ter graves consequências. Pedro já não é a rocha que era, mas é um pastor que diz à suas ovelhas: “Ide, buscai vós algo para comer”.

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E Francisco? É fácil prever que, como é do seu costume, não reage às advertências desses Cardeais. Não respondeu os cinco “dubia” sobre a “Amoris Laetitia” e a comunhão dos divorciados que voltaram a se casar [9]. Não respondeu os quatro “dubia” sobre a Comunhão para os cônjuges protestantes [10]. No primeiro caso, ele se calou; no segundo, disse para que se continue debatendo. Mesmo assim, escapa o seu pensamento, que, em ambos os casos, é favorável ao novo. Mas, o que lhe importa não é conseguir imediatamente o resultado. Para ele basta que se coloque em andamento o “processo” de mudança. Um número cada vez maior de Cardeais e Bispos vê nele o risco de ruptura da unidade da Igreja sobres questões centrais da fé católica. Mas, para ele, a Igreja deve ser claramente assim: “poliédrica”, com muitas faces. Em resumo: em pedaços.

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Enquanto isso, na Alemanha, a discussão que o Papa deseja já começou, e as posições continuam sendo divergentes: “Bispo alemão: o Papa Francisco efetivamente aprovou o comunicado da intercomunhão” [11].

NOTAS.

[1]. Cf. [http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2018/05/02/un-cardenal-siete-obispos-y-cuatro-nuevos-dubia-esta-vez-sobre-la-intercomunion/].

[2]. Cf. [http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2018/05/03/0318/00695.html].

[3]. Cf. [http://www.ncregister.com/blog/edward-pentin/cardinal-eijk-pope-needed-to-give-clarity-to-german-bishops-on-intercommuni].

[4]. Cf. [http://www.lanuovabq.it/it/il-papa-non-puo-ammettere-lintercomunione].

[5]. Cf. [https://infovaticana.com/2018/05/08/eijk-relaciona-la-actitud-del-papa-ante-la-intercomunion-la-profetizada-gran-apostasia/].

[6]. Cf. [https://youtu.be/W8Dlt6gzB-4].

[7]. Cf. [http://www.ncregister.com/blog/edward-pentin/cardinal-mueller-on-intercommunion-meeting-more-clarity-and-courage-needed].

[8]. Idem.

[9]. Cf. [http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1351414ffae.html?sp=y].

[10]. Cf. [http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2018/05/02/un-cardenal-siete-obispos-y-cuatro-nuevos-dubia-esta-vez-sobre-la-intercomunion/].

[11]. Cf. [https://onepeterfive.com/german-bishop-pope-francis-has-effectively-approved-of-the-intercommunion-handout/